Conferencista Edimilson Garcia

segunda-feira, 30 de maio de 2011

CONFERINDO O FUTURO - ESCATOLOGICO

Conferindo o Futuro - Escatologia

Mateus 24.1-14


         Os futuristas estão divididos: o discurso do Monte das Oliveiras (o Sermão Profético de Jesus – N.R.) já foi parcialmente cumprido? A discordância polariza-se neste ponto: Mateus 24.4-14 descreve características gerais do período da Igreja ou tão somente dos sete anos da Tribulação vindoura?
         Esses versículos falam de “guerras e rumores de guerras” (v. 6); “fomes e terremotos” (v. 7);  tribulação, martírio, traição, ódio, falsos profetas e corrupção (vv. 9-12).
         Apesar daquilo que alguns ensinam atualmente, os versículos de 4 a 14 só podem ser escatológicos e, por vários motivos, só podem estar se referindo aos acontecimentos da primeira metade da Tribulação.

As Condições

         As condições descritas precisam ser entendidas como julgamentos divinos e não como desastres “naturais”, seguindo o padrão de revelação estabelecido no Velho Testamento. Jesus disse que  “...tudo isto é o princípio das dores [literalmente, “dores de parto”] (v. 8). No Velho Testamento a palavra hebraica para “dores de parto” é usada pelos profetas para simbolizar as terríveis calamidades associadas ao Dia do Senhor (Is 21.3; Is 26.17-18; Is 66.7; Jr 4.31; Mq 4.10), particularmente aotempo da angústia de Jacó” (Jr 30.6-7), ao qual Jesus faz referência em Mateus 24.21, quando descreve a Grande Tribulação.
         Muitos judeus, nos dias do Segundo Templo, esperavam um tempo de sofrimentos imediatamente antes do fim. A seita judaica de Qumran (os essênios – N.R.) atribuía a essa angústia
“dores, como de parto”.
         Igualmente, o judaísmo rabínico cita as “dores de parto (em hebraico, chavalim) [relacionadas à vinda] do Messias” como uma série de convulsões globais que anteciparão a Era Messiânica. No Talmude, a lista dessas condições desastrosas (espirituais, morais, políticas, sociais e ecológicas – que caracterizam “a geração em que virá o Filho de Davi”, Sanhedrin 97a) em muito se assemelha à lista de Mateus 24.4-14.
         Como o Novo Testamento indica que a Igreja não enfrentará o juízo preparado por Deus para o Dia do Senhor (1 Ts 5.9; Ap 3.10), os versículos de Mateus não podem estar descrevendo acontecimentos da Era da Igreja.

A Seqüência

         Em segundo lugar, Jesus declarou que esses acontecimentos não seriam “o final” do juízo, mas apenas “o princípio” (v. 8). As dores iniciais serão seguidas de dores mais intensas, no clímax do parto. Como a Tribulação não virá imediatamente após o Arrebatamento da Igreja, pois seu início está previsto para o começo da 70ª Semana de Daniel (Dn 9.27), os versículos de Mateus não podem estar descrevendo acontecimentos da Era da Igreja.

         O maior argumento de que esses versículos se referem ao contexto da Tribulação surge na comparação dos mesmos (vv. 4-14) com os cinco primeiros selos de juízo em Apocalipse 6 (confira o Quadro 1).
         Essas condições paralelas demonstram que, assim como os selos de Apocalipse 6 são seguidos pelo juízo mais intenso das trombetas e das taças, o
“princípio das dores” descrito em Mateus 24.4-14 vem seguido das “dores de parto finais”, mais intensas, descritas em Mateus 24.15-26, que culminarão na vinda do Messias (vv. 27-31).
         Além disso, o próprio Senhor Jesus fez referência à profecia da 70ª Semana de Daniel:
 
“Quando, pois, virdes o abominável da desolação de que falou o profeta Daniel, no lugar santo (quem lê, entenda), então, os que estiverem na Judéia fujam para os montes” (Mt 24.15-16).

         Tanto Mateus quanto Marcos (Mc 13.14) apontam o texto de Daniel para esclarecimento da profecia feita no Monte das Oliveiras. Conclui-se que Jesus usa a profecia da 70ª Semana de Daniel como patamar para os eventos cronológicos apresentados em resposta às perguntas dos discípulos. Isso também acontece na seção de juízos do livro do Apocalipse (capítulos 4-19), onde Jesus, o Autor da visão recebida pelo apóstolo João (Ap 1.1), concede-a com divisões estruturalmente semelhantes à 70ª Semana de Daniel.
          Colocando os textos lado a lado (veja o Quadro 2), descobrimos
que o “princípio das dores” de Mateus 24.4-14 se ajusta ao juízo dos selos de Apocalipse 4-6, aonde ambos (1) focalizam eventos terrenos; (2) cabem na primeira metade da 70ª Semana de Daniel (Dn 9.27a); e (3) culminam na profanação do Templo (o “abominável da desolação”) tanto em Mateus 24.15 quanto em Marcos 13.14, o ponto central da 70ª Semana de Daniel (Dn 9.27b).
         Em seguida, os eventos intensificam-se e conduzem às dores de parto finais de Mateus 24.16-26, que (1) identificam-se com Apocalipse 7-19, (2) enfocam a dimensão celestial, e (3) culminam no surgimento do
“sinal” celestial, que anuncia a vinda do Messias para julgar o mundo (Mt 24.27-31; Ap 19). Esses acontecimentos cabem na segunda metade da 70ª Semana de Daniel (Dn 9.27b), que termina na destruição do desolador do Templo (“o príncipe, que há de vir”, o Anticristo, Dn 9.26).
         Se os versículos de Mateus 24.4-14 predizem sinais da futura Tribulação e tratam principalmente do povo judeu nesse período, seu cumprimento não pode estar no passado, especificamente, na queda de Jerusalém em 70 d.C. Ao comparar os eventos descritos nos versículos torna-se evidente que eles não se identificam com fatos históricos do primeiro século.
         A passagem descreve guerras entre diferentes nações e reinos, não apenas entre uma única nação (Roma) e Israel, como aconteceu na Primeira Revolta do povo judeu contra Roma (66-74 d.C.).
          As Escrituras também dizem que muitos se levantarão dizendo ser o Cristo (Messias). Mas não existe evidência histórica de alguém que se declarasse messias no primeiro século, até Simão Bar-Kokhba (135 d.C.), um único indivíduo.
         Esses sinais também não devem ser usados pela Igreja
“como sinais dos tempos”, apontando a aproximação da volta do Senhor. Muitos cristãos têm usado o aparente aumento de terremotos, apostasia na Igreja, e o declínio moral generalizado da sociedade como indicadores de estarmos rapidamente nos aproximando do Arrebatamento e dos últimos dias. Contudo, o Arrebatamento não será precedido por sinais; e como as dores de parto somente começarão quando Israel entrar no “tempo da angústia de Jacó” (e não sabemos quanto tempo isso levará depois do Arrebatamento), devemos usar de cautela ao tentar prever a aproximação de eventos escatológicos, baseando-nos na presença dessas condições na era presente.
         Na Era da Igreja, essas condições gerais (apresentadas em 1 Tm 4.1-3; 2 Tm 3.1-9; 1 Jo 2.18; 1 Jo 4.1-3) servem de alerta quanto a estarmos
“nos últimos dias”. Mas durante a Tribulação, as condições dos versículos 4-14 serão sinais específicos dos tempos finais, e os judeus convertidos poderão localizar-se dentro da 70ª Semana e perseverar até o final da Tribulação: “Aquele, porém, que perseverar até o fim, esse será salvo” – literalmente liberto do cárcere, quando da vinda do Messias (v. 13).
 
 
         Serão esses sinais – especialmente o acontecimento descrito no versículo 15, “o abominável da desolação” – que permitirão aos santos da Tribulação perseverarem física e espiritualmente enquanto esperam a libertação prometida para o final da 70ª Semana de Daniel.

sábado, 28 de maio de 2011

NOMES E SÍMBOLOS DO ESPÍRITO E SUAS ASSOCIAÇÕES

           NOMES E SÍMBOLOS DO ESPÍRITO E SUAS ASSOCIAÇÕES

1. O MINISTÉRIO DO ESPÍRITO ASSOCIADO AO NOME DE CRISTO
* O exemplo de Cristo associado com a figura do Cordeiro de Deus - João 1.29 No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.
* O exemplo de Cristo homem associado como sucessor e antecessor - João 1.30 Este é aquele do qual eu disse: Após mim vem um homem que é antes de mim, porque foi primeiro do que eu.
* O exemplo de Cristo como Logo encarnado associado à verdade - João 1.31 E eu não o conhecia; mas, para que ele fosse manifestado a Israel, vim eu, por isso, batizando com água.

2. O MINISTÉRIO DO ESPÍRITO EM CRISTO NA FIGURA DA POMBA
* A figura da pomba indica como atuaria o Espírito em Cristo - João 1.32 E João testificou, dizendo: Eu vi o Espírito descer do céu como pomba, e repousar sobre ele. Lucas 4.18 O Espírito do Senhor é sobre mim, Pois que me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os quebrantados do coração,
* Jesus Cristo atuou com afetuosa ternura em seu apego ao homem - João 1.33a... E eu não o conhecia, mas o que me mandou a batizar com água, esse me disse: Sobre aquele que – Mateus 9.36
E, vendo as multidões, teve grande compaixão delas, porque andavam cansadas e desgarradas, como ovelhas que não têm pastor
* Jesus Cristo atuou com gentileza de um modo positivo e completo - João 1.33b...vires descer o Espírito, - Isaías 61.1 O espírito do Senhor DEUS está sobre mim; porque o SENHOR me ungiu, para pregar boas novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos;
*Jesus Cristo atuo u com amizade não só como Senhor, e sim amigo - João 1.33c. e sobre ele repousar, João 15.15 Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer
* Jesus Cristo atuou na pureza do Espírito na regeneração da alma - João 1.33d...esse é o que batiza com o Espírito Santo. - Tito 3.5 Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo
3. O MINISTÉRIO DO ESPÍRITO E AS DESIGNAÇÕES DO SEU NOME
* Como Espírito de Cristo ilustra Jesus Cristo na vida do crente - Romanos 8.9 Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele.
* Como Espírito Santo forma a natureza moral de Deus no crente - Romanos 8.10 E, se Cristo está em vós, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o espírito vive por causa da justiça.
* Como Espírito Santo opera a santificação que leva a glorificação - Romanos 8.11 E, se o Espírito daquele que dentre os mortos ressuscitou a Jesus habita em vós, aquele que dentre os mortos ressuscitou a Cristo também vivificará os vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que em vós habita.
* Como Espírito de Deus nos guia a uma vida diária de santidade - Romanos 8.14 Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus esses são filhos de Deus.
* Como Espírito Santo produz o privilégio da adoção ao homem - Romanos 8.15 Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes em temor, mas recebestes o Espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai.



Obs: O esboço é elaborado seguindo o texto bíblico da lição.

ESPÍRITO SANTO, TERCEIRA PESSOA DA TRINDADE

                                              ESPÍRITO SANTO, TERCEIRA PESSOA DA TRINDADE

1. ELE É A CONTINUAÇÃO DO SENHOR JESUS ENTRE NÓS
* Ele veio para orientar todos os cursos de ações em nossas vidas  - João 14.16 - E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre - Mateus 28.20 Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém
* Ele veio para o mundo pecaminoso não entrar em colapso total -   - João 14.17 - o ESPÍRITO da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; - 2 Tessalonicenses 2.7  Porque já o mistério da injustiça opera; somente há um que agora resiste até que do meio seja tirado;
* Ele veio com o propósito de estar entre nós e estar em nós - João 14.17b...mas vós o conheceis, porque habita convosco e estará em vós. - I Coríntios 3.16 Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?
2. ELE É O GERENCIADOR DA IGREJA DO SENHOR JESUS
* Ele é o guia em muitos particulares da vida do crente - João 14.26a... - Mas aquele Consolador, o ESPÍRITO SANTO, que o Pai enviará em meu nome, - Romanos 8.14 Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus 
* Ele que aplica as realidades de Cristo em nossos corações - João 14.26b...vos ensinará todas as coisas - Romanos 15.13 Ora o Deus de esperança vos encha de todo o gozo e paz em crença, para que abundeis em esperança pela virtude do Espírito Santo.
* Ele faz lembrar tudo que aprendemos da palavra de Deus - João 14.26c...e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito - Lucas 12.12 Porque na mesma hora vos ensinará o Espírito Santo o que vos convenha falar
3. ELE É O PROPAGADOR DA OBRA DO SENHOR JESUS
* Como Espírito da verdade conduz os homens a Cristo - João 16.13 - Mas, quando vier aquele ESPÍRITO da verdade, ele vos guiará em toda a verdade, porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará o que há de vir. – Efésios 1.13 Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa
* Como Espírito da verdade veio a fim de glorificar a Cristo - João 16.14 - Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar. - I Coríntios 6.20
Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus
* Como Espírito da verdade é a garantia da nossa herança - João 16.15 - Tudo quanto o Pai tem é meu; por isso, vos disse que há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar.  Efésios 1.14
O qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória.

Obs: O esboço é elaborado seguindo o texto bíblico da lição.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

NOVO NASCIMENTO


                                                           NOVO  NASCIMENTO           

Regeneração é o Novo Nascimento, é a obra do Espírito Santo pela qual experimentamos uma mudança de coração. Os termos pelos quais esse estado se exprime nas Escrituras são: nascido de novo, ressuscitado com Cristo, participante da natureza divina[1]. Tal mudança no coração implicará num novo comportamento, onde sentimentos antes característicos darão lugar à presença do Salvador.

 O Novo Nascimento na Bíblia:
             O conceito de Novo Nascimento ou Regeneração aparece não somente no Novo Testamento, mas também é encontrado amplamente no Antigo Testamento[2]. Encontramos esse mesmo tema com diversas aplicações diferentes: nova criação, adoção, libertação. Encontramos também situações de conversão que indicam uma nova postura ou personalidade daquele que experimentou uma profunda mudança operada pela graça da salvação (conversão de Zaqueu, o publicano, Saulo etc.).
            Vejamos alguns exemplos da tradição profética do Antigo Testamento:

·         Novo coração de carne em lugar do velho, de pedra (Ez 11.19);
·         Nova Aliança, não escrita em tábuas de pedra, mas escrita no coração (Jr 31.33);
·         Pecados como a escarlata se tornam brancos como a neve (Is 1.18).

No Novo Testamento, o Novo Nascimento é mostrado em todas as situações de conversão, conferindo uma natureza transformada àqueles que dele participam, mediante a ação de Deus:

·         O arrependimento de Zaqueu, que resolve devolver o que não lhe era lícito possuir (Lc 19.22);
·         O perseguidor Saulo que se transforma no perseguido pregador Paulo (At 9.1-9);
·         O Eunuco que voltou para sua terra batizado por Filipe (At 8.26-40);
·         A transformação do atribulado gadareno (Lc 8.26-34).

Essa doutrina, tão evidente na Bíblia, foi enfatizada pelos pietistas, os quais, liderados por Spencer e Frank, reagiram contra a aridez escolástica luterana no século XVII, com sua preocupação com a exatidão doutrinária. Para os pietistas, o verdadeiro cristianismo começava com a experiência do Novo Nascimento e se evidenciava pela vida transformada.
Isso mostra a importância do Novo Nascimento para a vivência espiritual do cristão. A transformação que se evidencia na vida do novo convertido é tão intensa que é capaz de influenciar todo o curso de sua vida. O antigo sentimento de culpa dá lugar a um gozo e descanso outrora não sentidos. 

A Conversão:

            A conversão resulta na reconciliação do homem com Deus por meio de Jesus Cristo. Por causa do pecado, o homem vivia de relações cortadas com Deus. Quando, porém, este acolhe em seu coração o testemunho de Deus acerca do pecado (se arrepende), e a obra redentora de Jesus Cristo (fé), está automaticamente se reconciliando com Deus por meio de Seu Filho. É tão profunda a transformação que o Espírito de Deus faz numa pessoa que se arrepende e se reconcilia com Deus, que Jesus a chama de Novo Nascimento. Paulo a chama de Nova Criatura.
            Através da reconciliação com Deus temos:

Paz com Deus: Dando-se a reconciliação do homem com Deus, passa-se a existir a verdadeira paz no coração, pois o ser humano entra em harmonia consigo mesmo e com Deus. Somente quem tem um verdadeiro encontro com Deus, isto é, se converte, reconcilia-se com Deus, tem a verdadeira paz. Jesus deixa isso bem claro no Evangelho de João (14.27). Esta paz só é obtida através da reconciliação do homem com Deus. É uma paz produzida através da confiança que temos Nele, pois, se Ele venceu, nós também venceremos por meio de Sua graça;

                                   Vida Eterna: o maior temor do ser humano gira em torno da morte. A nova vida que o homem recebe quando se reconcilia com Deus (Novo Nascimento) é chamada de Vida Eterna, o que indica não somente a sua duração, mas também o seu poder. O grande mistério da vida ou o que acontecerá após a morte tem sido um fator que movimenta inúmeras discussões sem, no entanto, alcançar algum resultado positivo.

            Mas os que confiam em Jesus e crêem na Sua obra redentora, sabem para onde vão e o que vem depois da morte. Esta certeza nós encontramos na ressurreição de Jesus Cristo, pois assim como Ele ressuscitou, nós, juntamente com Ele, também ressuscitamos pelo poder de Deus (Ef 2.6). O único esforço de nossa parte é mantermos firme o Seu testemunho em nossas vidas e confiarmos na Sua redenção (Ap 12.11).


MARCOS 1.40-45


INTRODUÇÃO
  
            Muitas vezes nos preocupamos em ler o texto bíblico apenas como ele está, sem nos preocuparmos com as características do autor, ênfases teológicas, quem realmente escreveu e se este seguiu uma seqüência. Menos ainda nos lembramos que por traz do texto existe uma comunidade que recebeu o material e que este foi feito para dar respostas a inquietações do povo. E ainda achamos que tudo aconteceu da maneira como está relatado, isto é, na mesma seqüência.

            Neste trabalho, estamos utilizando a crítica literária para a interpretação da perícope que se encontra em Mc 1. 40-45. Vamos levantar as características do autor e da comunidade que recebeu o Evangelho, e com isso estaremos observando o contexto maior do nosso texto. Em seguida, vamos nos preocupar com o contexto menor: as perícopes que antecedem e estão posteriores ao nosso texto. Vamos nos preocupar em dizer o que a nossa perícope tem como tarefa dentro desse bloco. Estaremos propondo, logo após essa fase, uma delimitação melhor para essa perícope, observando como ela foi escrita e sua transmissão oral. Para encerrar, vamos nos preocupar com a aplicação da nossa perícope nos dias de hoje.
  
Contexto Maior: O Evangelho de Marcos

            A perícope (o texto) por nós utilizado está em Marcos 1.40-45, como segue:

"Aproximou-se dele um leproso rogando-lhe, de joelho: Se quiseres, podes purificar-me. Jesus, profundamente compadecido, estendeu a mão, tocou-o e disse-lhe: Quero, fica limpo! No mesmo instante, lhe desapareceu a lepra, e ficou limpo. Fazendo-lhe, então, veemente advertência, logo o despediu e lhe disse: Olha, não digas nada a ninguém; mas vai, mostra-te ao sacerdote e oferece pela tua purificação o que Moisés determinou, para servir de testemunho ao povo. Mas, tendo ele saído, entrou a propalar muitas cousas e a divulgar a notícia, a ponto de não mais poder Jesus entrar publicamente em qualquer cidade, mas permanecia fora, em lugares ermos; e de toda parte vinham ter com ele."

            Mas, para entendermos o que esse texto quer dizer e também realizar a crítica literária, precisamos conhecer o contexto maior desse texto, isto é, o livro em que ele está escrito: o Evangelho de Marcos. Dito isso, nos colocamos a fazer alguns comentários a respeito desse texto.
  
1. O Autor

            "A obra chamada 'segundo Evangelho', conforme a ordem do Cânon, não é assinada" (VÁRIOS. Evangelhos Sinóticos e Atos dos Apóstolos, Edições Paulinas, São Paulo, 1985, p. 116). Isso nos faz entender que existe a possibilidade de esse Evangelho ter sido escrito por uma pessoa ou comunidade desconhecidos e, posteriormente atribuído a Marcos, que pode ter sido o iniciador de um trabalho. Mas não dá para saber. O que realmente sabemos é que o livro foi escrito devido a necessidades de uma comunidade, como falaremos mais adiante. Neste momento, vamos nos preocupar com quem é Marcos.

            Pode ser o mesmo João Marcos que o “Atos dos Apóstolos” fala. Ele teria desistido de uma viagem missionária já começada, empreendida pela equipe de Barnabé e Paulo (At 13.5-13). Sua mãe morava em Jerusalém e em sua casa uma comunidade cristã se abrigava quando da libertação de Pedro da prisão (At 12.9-12). É bem provável que Marcos tenha escrito (se foi ele quem realmente o fez e nós entendemos assim) o seu Evangelho com base no testemunho desse apóstolo (Pedro), especificamente quando esteve em sua companhia na "Babilônia" - Roma (1 Pe 5.13).
  
2. Local e Data da Redação:

            Como já falamos, existe a possibilidade de ter sido em Roma. "Essa opinião tem o apoio de autores antigo: Clemente de Alexandria, Jerônimo, Eusébio e Efrém." (Ibid, p.94). Como Marcos não tinha sido apóstolo direto, ele precisaria do respaldo de uma igreja grande e Roma o era. Além disso, Roma era o ambiente pagão onde seria necessário se explicar costumes judaicos, como acontece em Mc 7.2-4.

            Uma segunda possibilidade é que o Evangelho tenha sido escrito em ambiente galileu, pois ressalta a importância da Galiléia: Jesus vem daí (1.9), chama os seus primeiros discípulos (1.16-20) e marca um encontro com seus discípulos após a ressurreição (16.7).

            Quanto à data da redação, também entendemos que foi escrito "em Roma, nas proximidades do ano 64" (J. DELORME. Leitura do Evangelho Segundo Marcos, Coleção Cadernos Bíblicos, Edições Paulinas, São Paulo, 1982, p. 9.) Como Marcos esteve com Pedro em Roma (1 Pe 5.13), é provável que daí tenha saído a escrituração do Evangelho. Como veremos na descrição da comunidade, esta passava por crises. Como o Evangelho foi escrito como um revitalizador para a comunidade, o Evangelho de Marcos deve ter sido escrito nessa crise, descrita mais adiante.

            E mais: Marcos foi o primeiro dos Evangelhos. Podemos ver isso na questão de Marcos não contar sobre a infância de Jesus. Quanto mais perto do tempo que Ele existiu, mais fácil de as pessoas acreditarem que Ele realmente nasceu como qualquer outro (não apareceu simplesmente) - humano, sendo concebido por obra do Espírito Santo - divino.
  
3. A Comunidade:

            Como já dissemos, por mais que Marcos tenha sido o redator final do Evangelho, existia uma comunidade por traz que recebeu o livro e para a qual, e em função da qual, ele foi escrito. A comunidade ‘marcana’ vivia momentos de crise, com o incêndio de Roma e a acusação de que os cristãos teriam praticado tal ato; o martírio dos grandes pregadores, como Pedro e Paulo. Podemos ver isso no relato do capítulo 13 que trata de um pequeno Apocalipse: por mais que existam problemas, a solução é Cristo e a Sua volta (vs. 24-27). A chegada do reino de Deus está prometida para logo (9.1). Disso podemos dizer que os problemas pelos quais a comunidade passava eram muitos e existia-se a necessidade de se lembrar que Cristo estava junto e que um dia (com a chegada do Reino de Deus - justiça, paz, amor), o sofrimento acabaria.

            A explicação de costumes judaicos nos remetem a entender que estavam em
ambiente pagão. Judeus, por mais que fossem convertidos, conheciam esses costumes. Por isso, podemos dizer que eram gentios. E, como pode se tratar de um testemunho de Pedro, podemos levar em conta que este se ocupou também com gentios em seu ministério. Como ele (Marcos) acabou tendo uma grande experiência missionária (depois do imprevisto, isto é, seu retorno na viagem com Barnabé e Paulo). Na Primeira Carta de Pedro, ele estava em Roma (1 Pe 5.13) e com Paulo quando de uma de suas prisões (Cl 4.10).

 4. Aspectos Literários:

            Marcos utiliza muito o anacoluto, isto é, ele começa um texto, no meio deste conta outra narrativa, e volta ao texto original. São exemplos:

     5.21-24 - cura da filha de Jairo; 5.25-34 - a cura de mulher com fluxo de sangue; 5.35-43 - cura da filha de Jairo;

     11.12-14 - a figueira infrutífera; 11.15-19 - a purificação do templo; 11.20-26 - a figueira infrutífera.

            Além disso, usa com muita freqüência palavras que servem de ligação entre fatos, como por exemplo, 'e logo', 'de novo'. Sem contar que as mesmas palavras podem ter significados diferentes, dependendo do contexto. Isso quer dizer que Marcos não se preocupou com variedade. E, como o texto foi escrito em grego (e entendemos, para uma comunidade gentílica, longe do judaísmo e, até da língua original de Jesus - o aramaico), aparecem muitas explicações de palavras que recordam o aramaico, como vemos em 5.41 e em 15.34.

 5. Aspectos Teológicos:

            O texto do Evangelho de Marcos está disposto em um formato com uma tendência teológica. Jesus começa seu ministério na Galiléia (1.14 - 5.43), uma região pobre, com muitos necessitados. O sentido da Galiléia para Marcos é mais forte do que para os outros evangelistas. Como a comunidade vivia uma época de crise, os cristãos (os seguidores de Cristo) sentiam-se (e o eram) desprezados, pois eram perseguidos por muitas coisas, e citamos como exemplos: por serem seguidores de Cristo e, com isso, iam contra as coisas erradas que o império propunha (como o culto ao imperador, que devia ser venerado como um deus); também pela questão do incêndio de Roma, onde a culpa caiu sobre os cristãos. Com isso, a Galiléia, que era uma região pobre e, por isso, desprezada, sendo importante para Marcos: era preciso mostrar que o Mestre também se identificava com essa região pobre, conseqüentemente, com quem era desprezado. Jesus morre em Jerusalém. Passa o Evangelho todo de Marcos em sua viagem para lá e, estando lá, é desprezado pela elite que lá habitava e é morto. Quando ressuscita, não volta a Jerusalém: aparece na Galiléia (16.7). É aí que acontecem os eventos mais importantes.   

            Na primeira parte do Evangelho Jesus ao realizar uma cura, adverte ao curado que permanecesse calado. Esse é o segredo messiânico. Era preciso realizar algo antes de ser admitido como Messias. No texto do capítulo 8. 27-30, acontece a revelação do segredo messiânico (v. 29, principalmente). A partir daí, se revela que tipo de Messias Jesus é: aquele que perdoa pecados e dá sua vida em favor daqueles que O aceitam. É bem verdade que a elite (Jerusalém) é quem mata Jesus. Por isso, Ele é o Messias dos que são marginalizados.

            Para encerrar essa parte de aspectos teológicos de Marcos, lembramos que o evangelista faz uso demasiado do número três nos acontecimentos, além de comentarmos que é estranho Jesus ir só a Jerusalém para morrer. Quanto ao número três, destacamos:

                        - três lugares diferentes de pregação: Galíléia, dentro e fora da Galiléia e em Jerusalém;

                        - três mulheres vão ao sepulcro no primeiro dia da semana (16.1); em Mateus são duas (28.1) e Lucas não especifica ("elas", 24.1);

                        - Jesus leva com Ele ao Getsêmani três discipulos (14.33);

                        - Pedro negaria Jesus por três vezes (14.30) e o faz (14.66-72);

            Para os cristãos o número três significa a Trindade. Mas a comunidade não tinha esse conceito ainda bem definido. A presença desse número pode representar o prenúncio de um pensamento sobre a Trindade, mas nada definido. E a ida para Jerusalém não deve ter se dado só para a morte. Jesus era judeu e todos os anos aconteciam festas nessa cidade. Marcos mostra uma Jerusalém (elite) que oprime e mata. Por isso, Jesus só vai para lá para encontrar-se com a morte.           
  
O Contexto Menor
  
            O nosso texto encontra-se em Mc 1.40-45. Qual é o seu contexto menor? Para determinarmos o contexto menor, precisamos ter uma visão total do livro, tomando como base os dados da nossa primeira parte e de um esboço do mesmo (do livro de Marcos). Com isso, passamos a propor um esboço, com base no esboço de KÜMMEL (Werner G. KÜMMEL. Introdução ao Novo Testamento, Editora Paulus, São Paulo, 1982, pp. 95 a 97.) e observações pessoais:

                        Introdução: 1.1-13
                        Primeira Parte: Jesus na Galiléia - 1.14 a 5.43
                        Segunda Parte: Jesus dentro e fora da Galiléia - 6.1 a 9.50
                        Terceira Parte: Jesus a caminho e em Jerusalém - 10.1 a 13.37
                        Quarta Parte: A paixão e ressurreição de Jesus - 14.1 a 16.8
                        Conclusão: 16.9-20

            Merece ressalva a conclusão: o texto do capítulo 16.9-20 pode ser um acréscimo posterior. Vejamos o versículo 7 desse capítulo. Ele fala que Jesus ressuscitou. O versículo 9 retoma a questão da ressurreição. Seria estranho terminar o Evangelho com o versículo 8, que fala de medo que, aliás, era a situação da comunidade, por perseguição e por falsa acusação de incendiar Roma. Por isso, se acrescentou posteriormente (acreditamos assim) à redação essa conclusão.
   
            Dito isso, voltemos ao esboço proposto. Podemos situar o nosso texto na primeira parte, isto é, na Atividade de Jesus na Galiléia. É aí que o Senhor chama os seus discípulos, cura um endemoniado, a sogra de Pedro, além de outros. Quando Ele se retira para orar, acaba encontrado um leproso, a quem cura e, voltando a Cafarnaum, cura um paralítico. No ínterim dessa cura, tem uma discussão com alguns escribas. Vocaciona Levi, um cobrador de impostos (que era, por sua profissão, mal visto na sociedade) e come com pecadores. Isso acaba desencadeando alguns discursos de Jesus. Volta a realizar curas e determina quem serão os doze seguidores mais próximos. Para encerrar essa parte, Jesus passa uma série de ensinamentos em forma de parábolas, explicando o significado aos doze em particular e realiza um milagre (acalma a tempestade) e outras curas.

            Dentro dessa parte, devemos situar o contexto menor, que seria o conjunto de perícopes que aparecem antes e depois da perícope escolhida para estudo. No nosso caso, delimitamos essa perícope de Mc 1.40-45 dentro dessa primeira parte de curas, que vai do v. 21 a té o capítulo 2.17.

            Feita essa delimitação, precisamos entender o que esse texto de 40 a 45 está fazendo exatamente nesse lugar e não está em outro, isto é, qual a sua função. Observando o texto, superficialmente, ele trata de uma simples cura, como outros textos desse contexto menor. Antes de prosseguirmos, vamos descrever quais as características básicas encontradas em um relato de cura:

a)   as pessoas buscam se aproximar de Jesus, e, algumas vezes, informações sobre a pessoa que busca auxílio e a duração da doença;

b)   qual o tipo da doença e, em alguns casos, informações sobre a precariedade dos resultados em tratamento anterior;

c)   a cura e suas conseqüências;

d)   como as pessoas que observaram a cura reagiram.

            Essa seqüência para a explicação de um milagre deve-se ao fato da existência de um tempo (no caso de Marcos, por volta de 30 anos) entre o fato e a escrituração do mesmo. É provável que nem todas as curas tiveram essa seqüência de acontecimentos. Mas, para efeitos de memorização do fato ocorrido, é mais fácil criar-se uma seqüência para os fatos em comum. A transmissão oral se ocupou desse artifício. Marcos, que estava bem próximo dessa tradição, a perpetuou nos seus escritos e os outros evangelistas (Mateus e Lucas, principalmente), que o utilizaram como fonte, fizeram essa seqüência permanecer. Vejamos o que se encaixa no nosso texto principal:

·      o leproso se aproximou de Jesus (v. 40);
·      o tipo de doença era lepra (v. 40);
·      a cura acontece quando Jesus o toca e a conseqüência é a necessidade de apresentar-se ao sacerdote e oferecer o que a Lei mandava (vs. 41-44);
·      como o leproso ao ser curado não cumpre o pedido de Jesus de não dizer nada a ninguém, as pessoas ficaram sabendo e Jesus tornou-se muito procurado (v. 45).

            Mas essa cura não é uma cura tão simples. Não era o fato simples de se expelir um demônio ou curar uma febre. "O gesto coloca em evidência um leproso que a Lei excluía da vida social" (GORGULHO & ANDERSON. A Justiça dos Pobres, Coleção Círculos Bíblicos nº 4, Edições Paulinas, São Paulo, 1981, p. 87). O leproso na cultura judaica, de acordo com a Lei, era desprezado, marginalizado. Não podia viver na cidade, mas sim nos lugares afastados, desertos. Eram alimentados por pessoas que deixavam a comida na beira do caminho, que sabiam que naquele lugar viviam leprosos. Vemos o dilema dos leprosos que já não tinham o que comer (pois a cidade também passava por uma dificuldade - estava sitiada e não entrava nada lá) e, cientes que poderiam morrer de qualquer forma, preferem visitar o acampamento do inimigo do que pedir comida em sua cidade (2 Rs 7.4). A penalidade era rígida. E mais: se um leproso viesse pelo caminho e uma pessoa sã também, no outro sentido, o leproso deveria avisar de sua situação de "sub-gente".

            O nosso contexto menor segue até ao 2.17. A partir do versículo 13, Jesus volta a mostrar Seu interesse pelos marginalizados. Ele escolhe um cobrador de impostos para segui-lO. Este, era visto como um pecador que roubava e oprimia o povo. Era marginalizado, estava à margem da sociedade, como o leproso, só que em outra condição. Dos versículos 15 a 17, Jesus está comendo com pecadores, isto é, marginalizados, e os escribas vendo isso, recriminaram Jesus, que é judeu. Diante disso, Jesus faz Sua escolha: veio para os marginalizados. O Filho de Deus (Mc 1.1) veio ao encontro dos necessitados, dos que precisavam de ajuda (v. 17) e que a religião judaica, tão ocupada com seu legalismo, não auxiliava.

            Diante dessas observações, podemos concluir que o nosso texto está nessa parte do Evangelho para introduzir a escolha de Jesus pelos marginalizados. Se diretamente aparecesse a questão d'Ele comer com os pecadores, não existiria respaldo para a confirmação dessa escolha. A cura de uma marginalizado mostra o início do interesse de Jesus por pessoas que necessitavam desse apoio.
  
Delimitação da Perícope e sua Escrituração: 

            Passamos agora a observar o texto de Mc 1.40-45 com maior atenção. Para que o entedimento seja completo, é possivel que em alguns momentos estejamos olhando para as perícopes imediatamente anterior e posterior ao texto

            Vemos no v. 40 que o leproso se aproximou de Jesus. Como eram considerados impuros, eles deveriam viver aos arredores das cidades, em lugares desertos, à margem do caminho. Isso quer dizer que para o leproso encontrar e se aproximar de Jesus, existia a necessidade d'Ele estar em um lugar afastado, e não em um "grande" ("GRANDE"observando-se as possibilidades da época.) centro. E, na perícope anterior, de 35 a 39, Jesus havia se retirado para um lugar deseto para orar. O v. 38 já relata o desejo de Jesus voltar para a cidade com a intensão de levar a mensagem. No v. 40, o leproso se aproximou de Jesus. Com isso, entendemos que o v. 39, que explica a volta de Jesus para a Galiléia e o que Ele fez, poderia ter entrado no texto posteriormente.

            Vamos observar o que aconteceu no decorrer do Evangelho depois da cura do leproso. Jesus entrou em Cafarnaum e realizou o que o v. 39 relata: pregou a Boa Nova, expulsou demônios e efetuou curas. Podemos entender que Jesus passou alguns dias (2.1) fora da cidade, após a cura do leproso. Ele teria se encontrado com o leproso quando se retirou para orar, no caminho de volta. Como para efetuar a cura Ele tocou no leproso, pela Lei tornou-se impuro (Lv 13 e 14), e permaneceu em lugares afastados até que, passados alguns dias, se comprovou que Ele não estava com lepra e, então, entrou na cidade, passando pela Galiléia, "pregando nas sinagogas deles e expelindo os demônios" (v. 39).

            Com isso, dizemos que a entrada na Galiléia do v. 39 só aconteceu dias depois da cura do leproso, que Jesus teria encontrado ainda em lugares desertos, no retorno do seu "retiro" para oração. Então, o v. 39 deveria estar originalmente depois do v. 45.

            Como Marcos foi o primeiro Evangelho a ser regidigido, suas fontes são quase todas orais. Por esse motivo, como já explicamos, era necessário uma seqüência lógica para que as pessoas não se esquecessem dessa tradição. Como o v. 38 já fala do desejo de Jesus retornar para outros lugares, seria mais fácil de se lembrar do Seu retorno com o comentário do que Ele já fez no seu retorno. Marcos deve ter perpetuado essa tradição, sem observar que o encontro com o leproso teria se dado nesse retorno. E nesse texto dos vs. 35 a 39, aparece mais uma alusão à possibilidade de Marcos ter escrito seu Evangelho com o testemunho de Pedro: ele (Marcos) fala de Pedro e dos outros seguidores, só citando o nome de Pedro (Simão, v. 36).

            Propomos, entretanto, que a perícope de Mc 1.40-45, delimitada na Bíblia do ALMEIDA, Revista e Atualizada, 2ª edição, 1993, deveria ser dividida desde o v. 35 até o 45, sendo que o v. 39 fosse o último dessa seqüência, dessa perícope. 

O Leproso nos Nossos Dias

            Jesus fez sua opção: veio para os que estavam "doentes" (Mc 2.17), para aqueles que eram desprezados na Lei, os marginalizados. O leproso era um. Como seguidores de Jesus, devemos observá-lO, tê-lO como nosso exemplo, e praticar o que Ele ensinou. Devemos estar ao lado dos que são desprezados socialmente. Como temos agido? Temos feito isso? Muitas vezes, seguir a Jesus nos incomoda. Principalmente nessa parte: auxiliar o marginalizado, o desprezado socialmente. É mais fácil e cômodo permanecer do lado dos poderosos . E quantas vezes nos pegamos não auxiliando um necessitado e dando apoio aos poderosos.

            Nos preocupamos demasiadamente com o ser puro, não praticar nenhum erro. Acabamos esquecendo de ser justos, não ajudando a quem realmente necessita. Sabemos que pela situação econômica, onde muitos têm poucos recursos e poucos acabam detendo a maior parte do capital, muitos dos que querem (ou dizem querer) ajudar, não podem. Devemos tomar consciência de que se repartirmos, mesmo o pouco que temos, muitos serão ajudados. Na multiplicação dos pães (Mc 6.30-44), só havia 5 pães e 2 peixes e cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças, se fartaram e sobraram 12 cestos cheios. Se cada um que só pode ajudar com pouco (ou melhor, com muito pouco) se colocar a realizar esse trabalho, muitos serão ajudados. A cura irá acontecer. Talvez não a cura de uma lepra, mas a cura da reintegração social, como também aconteceu com o leproso (v. 44)