Conferencista Edimilson Garcia

sábado, 14 de maio de 2011

1 CORINTIOS 11.2-16



            Conflitos, discórdias, cismas, desavenças, partidarismo (cf. 1 Coríntios 1.10-31; 3.1-9; 6; 8; 10.14-21 etc.). Em uma leitura rápida da carta aos Coríntios, estas são expressões que se destacam. O apóstolo Paulo recebe notícias sobre a situação da comunidade (1.11) e não tarda em escrever, novamente orientando, principalmente na tentativa de encontrar meios de buscar a união de um grupo tão diverso.
            Além de conflitos quanto à teologia, aparecem, de maneira mais acentuada, as tensões sociais entre pobres e ricos. Em uma sociedade estratificada, as dificuldades se acentuam. Apesar da distância histórica dos relatos, encontramos muitas similaridades com os nossos dias. E essas tensões se acentuam na reunião da Ekklesia - Igreja. Não é por menos que Paulo se preocupa longamente com esse assunto (a igreja, principalmente no momento da sua manifestação de culto – o texto desse estudo está inserido num contexto maior a respeito disso: 1 Coríntios 11-14).
             Como foi possível para Paulo encontrar uma saída para este problema? Como podemos encontrar soluções para nossas dificuldades de convivência em nossa prática comunitária?
            Quando nos deparamos com um texto bíblico, podemos tê-lo apenas como uma leitura devocional, até mesmo superficial, buscando apenas respostas para o dia-a-dia. Mas, quando passamos a lê-lo criticamente, notamos que, na verdade, o texto não é apenas o que está diante de nossos olhos. Ele passou por um processo de elaboração, de construção. É assim que podemos começar a vislumbrar respostas para as perguntas do parágrafo acima e até muitas outras.
            O objetivo deste estudo é, justamente, nos deixar cientes dessa realidade e começar a nos dar respostas. Temos ao nosso dispor métodos de estudo para desbravar a realidade do texto bíblico. Estes são instrumentos disponíveis para o melhor entendimento desse texto.
            Um motivo para que estejamos nos preocupando com o estudo sério da Bíblia é exercer a nossa vocação de maneira responsável e sincera, o que é essencial para que possamos, de um modo positivo, influenciar o meio no qual vivemos (igreja, bairro, família…). Outros fatores importantes para o exercício do chamado são: conhecer a realidade que nos cerca, ter conhecimento d’Aquele que fez o chamado.
            Tendo isso em mente, entendemos que o trabalho exegético é de suma importância para o estudo profundo e é realizado de forma a se entender realmente a Bíblia. Muitas vezes nos prendemos só na mensagem que o texto nos traz, ou pior, que queremos que ele nos traga. E o comprometimento que o/a teólogo/a tem com o povo faz com que ele ou ela tenha essa preocupação em utilizar os vários métodos da exegese para trazer o texto para o povo e para os nossos dias sem perder de vista o que realmente ele queria dizer, ou, pelo menos, chegar o mais próximo possível daquela realidade.
            O texto de 1 Coríntios 11.2-16 foi analisado utilizando os instrumentais da Crítica Textual, Crítica Literária, Crítica da Forma e a Análise do Conteúdo. Para as Críticas e a Análise do Conteúdo seguimos o manual para exegese de WEGNER & HOEFELMANN.
Lembramos que não podemos dissociar a perícope da carta toda, mesmo no seu estudo em particular. Diante disso, desenvolvemos, primeiramente (e de maneira breve), um estudo sobre a carta. Depois, entramos na nossa perícope de estudos, na qual tentaremos mergulhar com afinco. Isso nos levará a uma conclusão a respeito do texto e do estudo realizado, algo importante para o desenvolvimento da prática pastoral nos estudos e pregações, principalmente, e a um aprofundamento nas coisas que o Senhor mostra através das Páginas da Bíblia.

            Possuímos alguns métodos e critérios para a análise de textos, para uma melhor compreensão do mesmo. Portanto, a partir desse momento, passamos a nos utilizar desses métodos, visando a exegese e a compreensão do texto bíblico em questão.
           

1. O Texto[1]:


Com isso, estamos nos propondo a utilizar os métodos exegéticos para analisar a perícope (o texto) por nós utilizado, que está em 1 Coríntios 11.2-16, como segue:
2 
E louvo-vos, irmãos, porque em tudo vos lembrais de mim, e retendes os preceitos como vo-los entreguei.
3 
Mas quero que saibais que Cristo é a cabeça de todo o homem, e o homem a cabeça da mulher; e Deus a cabeça de Cristo.
4 
Todo o homem que ora ou profetiza, tendo a cabeça coberta, desonra a sua própria cabeça.
5 
Mas toda a mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta, desonra a sua própria cabeça, porque é como se estivesse rapada.
6 
Portanto, se a mulher não se cobre com véu, tosquie-se também. Mas, se para a mulher é coisa indecente tosquiar-se ou rapar-se, que ponha o véu.
7 
O homem, pois, não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem e glória de Deus, mas a mulher é a glória do homem.
8 
Porque o homem não provém da mulher, mas a mulher do homem.
9 
Porque também o homem não foi criado por causa da mulher, mas a mulher por causa do homem.
10 
Portanto, a mulher deve ter sobre a cabeça sinal de poderio, por causa dos anjos.
11 
Todavia, nem o homem é sem a mulher, nem a mulher sem o homem, no Senhor.
12 
Porque, como a mulher provém do homem, assim também o homem provém da mulher, mas tudo vem de Deus.
13 
Julgai entre vós mesmos: é decente que a mulher ore a Deus descoberta?
14 
Ou não vos ensina a mesma natureza que é desonra para o homem ter cabelo crescido?
15 
Mas ter a mulher cabelo crescido lhe é honroso, porque o cabelo lhe foi dado em lugar de véu.
16 
Mas, se alguém quiser ser contencioso, nós não temos tal costume, nem as igrejas de Deus.
            Temos, também, uma proposta de tradução pessoal a partir do texto grego, como segue:
2Todavia, vos louvo porque em tudo lembrais de mim e como guardais as tradições que vos transmiti. 3Porque a cabeça de todo macho é Cristo e a cabeça de toda mulher é o homem e a cabeça de Cristo é Deus. 4Todo homem que ora ou profetiza tendo (algo) sobre a cabeça desonra a sua (própria) cabeça. 5Toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça não coberta, desonra sua cabeça; com efeito, é também o mesmo que (a) raspá-la. 6Poque se não se cobre (a cabeça) (a) mulher, também que se tosquie; se, porém, (é) vergonhoso para a mulher o estar tosquiada ou raspada, que se cubra. 7(O) Homem certamente, com efeito, não deve cobrir a cabeça, sendo ele imagem e glória de Deus; a mulher, porém, (é) a glória do macho. 8Certamente não é (o) homem da mulher, mas sim a mulher do macho. 9Pois não foi criado (o) homem por causa da mulher, mas sim (a)  mulher por causa do macho. 10Portanto, deve ter a mulher poder sobre a cabeça, por causa dos anjos. 11Todavia, nem a mulher sem o macho, nem o homem sem a mulher, diante do Senhor; 12porque assim como a mulher provém do macho, do mesmo modo o homem vem por intermédio da mulher. 13Em vós mesmos julgai: É conveniente que (a) mulher ore a Deus sem a cabeça coberta? 14A natureza mesma não ensina que (o) macho, se usa penteado, certamente é vergonha para ele, 15mas para (a) mulher a glória é ter o cabelo penteado? Porque o penteado lhe foi dado em lugar do véu. 16Mas se alguém pensa em ser amigo de discussões, nós não temos tal costume, nem as igrejas de Deus.
.

2. Análise Literária:


a) Delimitação do texto

A nossa perícope pode ser restringida aos versículos 2 a 16 do cap. 11. O verso 1 é, na verdade, a conclusão do discurso anterior de Paulo (8.1 – 10.33). Esses versículos da nossa perícope formam a abertura do contexto maior do nosso texto, que trata a respeito do culto (1 Co 11-14). A questão de carnes oferecidas, tratada em textos anteriores, nos leva ao fato de o apóstolo próprio se colocar como exemplo a ser seguido (v.1). Por isso, entendemos que o nosso texto se inicia no versículo 2. Quanto ao final, no versículo 17 (Nisto que vou dizer-vos não vos louvo...) abre uma nova seção, diferente da seção anterior, em que o apóstolo começa louvando aos Coríntios (v. 2). Novo assunto, dentro da questão do culto, mas uma nova perícope.

- O contexto maior:

Desde o v. 2, o apóstolo está preocupado com assuntos referentes ao culto. Nos textos anteriores, ele se preocupa com a questão das carnes oferecidas. Imediatamente depois do término do capítulo 15, o apóstolo vai tratar da questão da ressurreição. Desde o versículo 2 do capítulo 11 temos questões referentes ao culto, indo até o v. 39 do capítulo 14. Desde o capítulo 11.2, temos os seguintes assuntos abordados: celebração da Ceia do Senhor (11. 17-34), os dons espirituais, distribuição e o corpo da igreja (11. 1-31), a ênfase na necessidade do amor como necessário para a vida cristã, sendo o maior dos dons (13. 1-13) e o uso dos dons espirituais na edificação da comunidade (14. 1-40).

- O contexto menor:

Como o texto do versículo 1 trata-se de um encerramento do contexto anterior, temos o início do nosso contexto menor no versículo 2. Sem contar com o fato de que encontramos no versículo 2 uma conjunção que pode significar uma transição de assuntos. No versículo 17, encontramos novamente a mesma conjunção (sempre no texto em grego). Isso nos dá o indício de que um novo assunto está começando.
Essa nossa posição é também seguida pelos autores/as pesquisados/as, excetuando-se KÜmmel, que defende que o início dessa perícope é o versículo 3, terminando também no versículo 16, mas não temos explicações que fundamentem a sua posição.

b) Estrutura do texto:

v. 2: Introdução;
vs. 3-6: primeiro argumento teológico: discussão sobre o homem e a mulher na criação:
- v. 3: princípio teológico;
- vs. 4-6: desenvolvimento em relação à oração de ambos no culto;
vs. 7-12: segundo argumento teológico:
- v. 7: anúncio do princípio teológico;
- vs. 8-12: discussão sobre a criação, na tentativa de corrigir a situação do homem e da mulher como foi apresentada nos vs. 3-6 (que parece não ter condições de convencer);
vs. 13-16 – retoma a questão da mulher e o cabelo a partir do controle social: questão de honra e vergonha;

- Explicação da estrutura:

            Paulo inicia o argumento lembrando aos coríntios que ele tem conhecimento de que eles conhecem as tradições por ele mesmo passadas. Diante dessa realidade de conhecimento, Paulo começa a discorrer sobre essa tradição, lembrando de aspectos da criação. Temos aqui uma argumentação teológica. Em cima dela, Paulo discorre sobre a posição do homem e da mulher na questão da oração no culto. Depois de discorrer em cima da criação, Paulo apela para a realidade social, onde era costume masculino o raspar a cabeça “Aparecer em público com a cabeça descoberta, no caso de mulheres adultas, tinha sabor de proibido e de extravagante. Pois, as cortesãs andavam sem véu, e as bacantes em seus ritos orgíacos, deixavam os cabelos soltos, ao vento” Apenas uma ressalva: entendemos que Paulo não está especificamente falando do véu, uma vez que ele só é citado por Paulo uma única vez (v. 15). Mas essa questão de ter os cabelos soltos, ao vento, nos leva também a algo citado pelo professor da disciplina na Faculdade de Teologia da Igreja Metodista, Paulo Roberto GARCIA: a realidade do culto onde a mulher, com os cabelos soltos, profetizava Por isso, ele esta argumentando com a necessidade de as mulheres terem cabelos longos e com penteado, para não rodar a cabeça no momento da profecia. É nessa questão de honra e vergonha que Paulo constrói o seu argumento final, lembrando que é desonroso para a mulher ter a cabeça raspada, uma vez que era costume entre homens essa realidade, de acordo com o texto citado de FOULKES (conforme nota de rodapé n° 4), levantando, ainda, a realidade de que na igreja de Deus não se tem o costume de ser um ‘amigo de discussões’, complicando a realidade.

c) Integridade e coesão do texto

A nossa perícope, entendemos, possui integridade e coesão. “O trecho de 1 Co 11.2-16 forma unidade bem definida, pelo conteúdo e pela conexão temática” Mesmo que pareça que Paulo não seguiu um único assunto quando tenta tratar da questão de homem e mulher e a oração no culto, entendemos que ele lançou mão do artifício da criação (tradição, conhecida, segundo o texto, pelos coríntios) e da questão cultural/social, para falar a respeito de um único assunto: o culto e as posições nele ocupadas.
Depois de sua introdução, trazendo à lembrança a tradição, Paulo mostra-se preocupado com a questão da origem, o que se mostra no desenvolvimento de seu texto. Ele se utiliza da palavra kefale (cabeça), na tentativa de mostrar que a mulher é tirada da costela do homem, mas o homem nasce da mulher. Na realidade, a preocupação última está no fato de demonstrar que, independente de quem deva ser obediente ou cabeça, Deus está acima, de quem vem tudo (11.12).
Um pouco antes, ainda nos versículo de 4 à 6, vemos uma continuidade com o texto anterior. No versículo 2, uma introdução; no versículo 3, a introdução a um argumento (ver estrutura do texto acima). Nos versículos de 4 à 6, vemos o desejo de se chegar a uma conclusão frente ao assunto apresentado...
Na continuidade, vemos no texto de 7 à 12 com novo argumento: além de se falar da criação (o tema continua, de certa forma, sendo abordado), Paulo introduz uma nova argumentação, mas sem se desviar do tema proposto. O apóstolo vai trabalhar com a questão da honra e vergonha (já mencionada neste estudo), colocada pela própria sociedade, sem se desviar do seu propósito de falar a respeito do culto.
No final do discurso de nossa perícope, no versículo 16, temos as conjunções ei de (ei: conjunção condicional – se; de: conjunção adversativa – mas). Pudemos observar que esse argumento pode não ser totalmente convincente. Diante disso, o apóstolo apela para o que é usual na igreja (usando a expressão suneqeian). Teoricamente, se é usual nas demais igrejas de Deus, não se deve ser discutido, a menos que se prove, com boa argumentação, que está errado.
Independente de a argumentação mudar, o apóstolo continua trabalhando com a questão do homem e a mulher e sua participação no culto. É a partir do versículo 17 que identificamos a introdução de um novo assunto, ainda dentro da questão do culto, mas já não só preocupado com a participação de homens e mulheres. Pode até estar ligada a essa participação, mas já não é mais orando ou profetizando. Agora é participando da Ceia. Com isso, entendemos que a perícope de 1 Co 11.2-16 tem coesão e integridade, sem fugir do assunto.

d) Uso de fontes

O apóstolo tem seu primeiro argumento fundamentado na criação/tradição da igreja. Isso (essa tradição) está registrado em Gênesis 1-2.25. Paulo não apenas cita, mas tenta dar a sua interpretação a tais relatos, que se tratam de dois relatos a respeito da criação. Mas Paulo, que foi instruído aos pés de Gamaliel (cf. Atos 22.3), não poderia fugir das interpretações rabínicas de passagens vétero-testamentárias. Essas interpretações eram chamadas midrasches, que eram comuns dentro do pensamento e fala judaica nos tempos de Paulo. Diante disso, podemos entender que Paulo não está simplesmente apresentando algo seu, mas uma interpretação de seus contemporâneos, principalmente judeus-cristãos.
Ainda nos relatos da criação, vemos o apóstolo usando o termo grego eiken (imagem) em associação com doxa (glória) em 1 Coríntios 11.7. Aqui vemos a relação com Gênesis 1.26-27 onde temos a afirmação que o ser humano, homem e mulher, foram criados à imagem e semelhança de Deus. Mas podemos identificar que o apóstolo não está livre de interpretações rabínicas, uma vez que se pode observar nesse texto indícios “de especulações judeu-rabínicas, que, interpretando o capítulo 1 do Gênesis à luz do capítulo 2, limitavam a qualificação de imagem de Deus à parte masculina do gênero humano.”. Isso continua em 11. 8-9, onde temos um apelo apara uma fonte de autoridade social. A cultura vem falar é o que Paulo vai usar. Barbaglio vai dizer que em 11. 13-15 “a linguagem revela uma dependência da filosofia moral do estoicismo: não fica bem, a natureza ensina”. R. Bultmann também confirma isso, pois "mostrou que a maneira de argumentar de Paulo lembra às vezes, o estilo de argumentação dos estóicos".
O apóstolo mostra-se, com isso, dependente de seu tempo: utiliza-se do pensamento judaico e rabínico e de costumes da própria sociedade em que os coríntios estão inseridos.

3. Crítica da Forma:

            A perícope que estamos estudando é parte integrante do gênero literário denominado ‘argumentação simbulêutica’. “Numa argumentação tenta-se converter algo coletivamente duvidoso em algo coletivamente válido, com o auxílio de algo coletivamente válido”. Com isso, podemos dizer que a argumentação tenta legitimar algo que pareça duvidoso, a partir de algo que seja aceito, tornando isso aceito. Paulo, no nosso texto, está construindo essa argumentação, quando parte do argumento de que as mulheres devem estar submissas aos homens, apresentando, na realidade, uma construção em cima da tradição, até mesmo da Lei. O que é duvidoso para algumas pessoas da comunidade é o fato de a mulher poder ou não falar na mesma, uma vez que ela deve estar submissa ao homem. Mas Paulo mostra a tradição, mostra que, apesar de um ser cabeça e a outra ser submissa, não há diferença entre ambos. Apenas por uma questão social, a mulher deve ter uma postura diferente no culto para falar (o seu cabelo com penteado).
Mais especificamente, a argumentação do nosso texto é simbulêutica, uma vez que trata de problemas internos da comunidade Nossa perícope está no contexto maior, dentro da epístola, referente ao culto (cf. já mencionado neste estudo). Por isso, podemos dizer que está preocupada com aspectos de problemas da própria comunidade.

a) Gênero Maior:

No caso da nossa perícope, temos como gênero maior a própria carta de Paulo. “O gênero ‘cartas’ é o mais freqüente no NT, pois compreende 21 dos seus 27 livros, ou seja, 80%”. Podemos ver como é vasto o campo desse gênero, que se caracteriza por relatar situações específicas, sendo uma correspondência entre remetentes e destinatários conhecidos. É exatamente o que acontece nessa carta de Paulo aos Coríntios: ele escreve com prescrições específicas, recomendações, sendo que o faz para uma comunidade específica.

b) Gênero Menor:

Segundo WEGNER & HOEFELMANN, podemos identificar que a perícope em questão trata-se de uma tradição parenética, que “compreende o conjunto dos textos que oferecem orientações para o comportamento ético dos cristãos”. Essa tradição busca observar e determinar a natureza das tradições assimiladas e encaixá-las em determinado gênero literário. E podemos dizer que Paulo está preocupado com a acertada ordem no culto, buscando base disso nas tradições e na argumentação paulina que, mesmo sem contradizer totalmente a tradição, normalmente (como acontece na nossa perícope) ele encontra uma nova interpretação que, na verdade, poderia ser observada até no trato social.

Sitz Im Leben:

            O lugar vivencial dessa nossa perícope está inserido no contexto do culto na comunidade de Corinto. Toda a argumentação é feita com a intenção de regulamentar a questão de participação do culto, de homens e mulheres. A argumentação pode ter variado ponto de partida (ou a criação ou o costume social). Isso não importa: temos claro que o apóstolo está preocupado com a regulamentação do culto na comunidade de corinto. Temos a presença de elementos que nos mostram isso, como, por exemplo, orar e profetizar.

4. Análise de Conteúdo:

            Para entendermos os conflitos da comunidade em Corinto, faz-se necessária uma visão mínima sobre o local e o contexto que esta comunidade está inserida.
Corinto era a capital da província da Acaia, com uma localização geográficadiokos, onde as embarcações eram arrastadas de um lado para o outro do istmo de seis quilômetros, que ligava o porto de Cencréia ao porto de Laqueu. A cidade de Corinto possuía intensa atividade comercial, sendo também conhecida pela indústria de cerâmica, bronze e artesanato em geral. Isso se devia ao fato de ser uma cidade portuária e parte integrante da rota comercial. Ainda olhando para a localização geográfica de Corinto, podemos perceber porque ela tinha vocação para ser uma grande cidade, uma vez que todo o comércio entre o norte e o sul deveria passar necessariamente por ela (a questão de a cidade estar num istmo de seis quilômetros que liga a Península do Peloponeso, ao sul, ao restante da Grécia). privilegiada, pois ligava a península de Peloponeso ao restante da Grécia, possuindo uma trilha denominada
           
A navegação pelas costas de Corinto era difícil e perigosa, sendo a travessia  feita por terra. Os navios menores eram arrastados de um lado a outro, e os maiores eram descarregados de um lado, a mercadoria levada até outro extremo e embarcada em um novo navio.
Com isso, muitas pessoas aportavam nessa cidade. Elas passavam apenas ou poderiam até morar. Mas levavam sua forma de cultuar e de viver. Isso talvez explique a grande quantidade de sincretismos dessa cidade.
            Estudos têm demonstrado uma cifra populacional em torno de 250.000 a 500.000 habitantes. Sua densidade demográfica é considerada alta. É óbvio que uma cidade com tais proporções e características, necessita de muita mão de obra para subsistir. Estima-se que a população de livres e libertos era de um terço do total, sendo que o restante era de escravos.
Com relação ao aspecto político, Corinto era a segunda maior e mais importante cidade do império, estando abaixo apenas da capital, Roma. A sua importância se mostra na sua qualidade de cidade portuária e integrante da rota comercial. Por isso, deveria ser bem cuidada, com características mínimas para atrair os comerciantes.
Outro aspecto importante sobre a cidade de Corinto era o seu sincretismo religioso-cultural. O culto a Netuno, Apolo e Afrodite eram muito difundidos. Podemos dizer que o culto a Afrodite tem sido o mais debatido, pela questão da “prostituição sagrada”. Mas também tínhamos cultos a Ìsis, onde “cabelos esvoaçantes e soltos podiam se ver no culto (...), que possuía importante centro em Corinto”. Nesse culto, as mulheres deixavam o cabelo solto e os homens tinham seus cabelos cortados rente a pele. “Daí, a afirmação sarcástica de Paulo nos vv. 5s de que as mulheres, que soltam os cabelos, devem também cortá-los curto ou rente a pele”. Como as mulheres da comunidade cristã em Corinto assimilaram essa prática pagã, o apóstolo está tentando evitar isso, para que os cultos cristãos não fossem iguais aos pagãos, mostrando que o cristianismo tinha algo diferente, uma ordem diferente. Havia, também, a prática de se sacrificar animais a esses deuses e sua carne era, posteriormente, oferecida em banquetes ou era vendida. O consumo desta carne, mais tarde traria problemas à comunidade de Corinto (cf. 1 Coríntios 8).
            Ainda precisamos observar a estrutura social da comunidade cristã em Corinto. Esta comunidade, segundo Atos 18.1-18, foi fundada por Paulo, em torno de 50 a 52 d.C.. Tendo em vista a cidade em que se situava, não é difícil imaginar a composição desta comunidade. A primeira carta de Paulo aos Coríntios nos apresenta diversas evidências de estratificação social, além do conflito entre fracos/fortes, ricos/pobres. A seguir, buscaremos destacar algumas evidências encontradas na própria carta.
            Em 1 Coríntios 1.11, encontramos uma das fontes que Paulo capta as informações sobre os conflitos da comunidade: ... pessoas da casa de Cloé me informaram que existe rixas entre vós. O termo “pessoas da casa de Cloé” nos leva a pensarmos sobre “escravos de Cloé”. Temos indícios, por autores pesquisados, que estes se tratavam, na verdade, de escravos.
            Como base para a afirmação das diferenças sociais em Corinto, podemos tomar o texto de 1 Coríntios 1.26-29, no qual destacamos: não há entre vós muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de família prestigiosa ... (1.26). Este texto é importante por destacar, além existência de uma elite, a existência majoritária de “fracos”, “ignóbeis do mundo”, “desprezados” e “os que não são”.
            No texto de 1 Coríntios 7.21, fica explícita a existência dos escravos: Eras escravo quando fostes chamado? ; e ainda em 11.21s, ressalta: ... enquanto um passa fome, outro fica embriagado... . Uma análise mais ampla sobre a existência destas “classes sociais” pode ser encontrada no estudo que THEISSEN faz sobre o problema com relação à carne sacrificada aos ídolos, descrito em 1 Coríntios 8-10.
            É interessante notar ainda, o fato da comunidade cristã em Corinto apresentar outras divisões e conflitos, ligados tanto ao âmbito social como ao âmbito teológico e à prática comunitária da igreja. Quanto ao âmbito teológico, refiro-me especialmente aos partidos existentes em Corinto. Desde o início de sua carta, são apresentadas ‘rixas’ ou ‘contendas’, expressas no original grego pelos termos exrides (1.11), caracterizando “disputas”, “debates verbais”, scismata (11.19), caracterizando “facções”, “cismas” ou “grupos” e aireseis (11.19), designando “escolha de idéias ou doutrinas erradas” ou simplesmente “divisões”. Não entraremos em detalhe quanto ao caráter dessas contendas. Em todo caso, fica claro que a comunidade cristã em Corinto apresenta dificuldades em caracterizar-se como “comunidade de Cristo”.
... A comunidade de Corinto se caracteriza por uma estratificação social interna: a uns poucos membros da elite corresponde a maioria das pessoas provenientes do proletariado da cidade. A superioridade numérica, no entanto, ainda não significa comando da comunidade. É o que parece estar acontecendo em Corinto: apesar de minoritários, os segmentos da classe superior parecem dominar em termos de influência...            Como conclusão a respeito da comunidade, entendemos que a primeira carta de Paulo aos Coríntios trata de uma comunidade aberta aos gentios, com uma participação judaico-cristã (Atos 18.8; 1 Coríntios 10.32), portadora de algumas virtudes (1 Coríntios 1.4-7), porém, marcada por uma heterogeneidade social, liderada por uma minoria faccionada e elitista, com uma maioria de pobres e escravos, na qual estes conflitos refletirão diretamente na ação comunitária, no espaço do culto.

Nosso texto:

            Encontramos em 1 Coríntios 11.2-16 a séria questão da participação do homem e da mulher no culto. Era comum (como já citamos), que a mulher nem fosse contada nos seguimentos da sociedade da época. E no cristianismo? Isso era igual?
            Lembramos de Jesus no seu encontro com a mulher samaritana (João 4). Sabemos que os samaritanos e os judeus não se conversavam. Para os judeus, os samaritanos eram impuros. Jesus não só conversa com um samaritano: conversa com UMA samaritana. Há uma quebra de paradigmas.
            Isso nos mostra que no cristianismo há uma inversão do pensamento da época. Paulo também trabalha isso: ... formando um só corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres ... (1 Co 12.13). O apóstolo não tem a intenção de seguir o pensamento da época (que a mulher deve usar véu. O Apóstolo nem fala a respeito de véu, apenas menciona no versículo 15 que o cabelo é dado em lugar do véu.
            Paulo menciona que a mulher dever ter poder sobre a sua cabeça (evxousian). Não fala de submissão. Isso nos mostra que, diferentemente do mundo da época, a mulher poderia participar do culto, orar ou profetizar, desde que com o komá (penteado), também diferentemente do mundo da época, onde a mulher, nos cultos pagãos, deveria estar com o cabelo solto para profetizar. O Apóstolo só está preocupado em que o cristianismo seja diferente: a mulher pode participar, desde que observe em sua postura algo diferente. Temos uma proposta de ordem diferente dos cultos pagãos.
            Entendemos que a participação de homens e mulheres no culto é o assunto principal desse texto. Com isso, podemos dizer que ele é destinado aos Coríntios, na busca de regulamentar essa participação, sem o sentido de excluir ninguém.



            O apóstolo Paulo tem um campo muito vasto de atividade e influência no Novo Testamento. Ele estava preocupado em dar visão do que realmente era o cristianismo nascente naqueles dias. Grande missionário, que enfrentou viagens, naufrágios e prisão para levar a frente a obra iniciada. Pastor, com grande zelo e amor, cuidava do povo que, ou ele tinha evangelizado, ou eram pessoas que vinham de frutos de seus trabalhos em outros lugares, ou pessoas que eram evangelizadas por outras pessoas que conheceram o cristianismo através do apóstolo. Mesmo diante de sua limitação humana, podendo se contradizer em alguma situação, Paulo não mediu esforços para levar essa obra com zelo, dentro de suas limitações.
            Pudemos observar que o apóstolo não estava querendo excluir ninguém da participação do culto. Aliás, todo o contexto maior do nosso texto retrata isso: desejo que as pessoas participem da Ceia, dos trabalhos com seus dons, norteando cada um/a isso no amor (1 Coríntios 13). Um amor que não exclui, antes orienta, mostra o caminho e realiza a obra com auxílio mútuo.
            É extremamente necessário que estejamos dispostos/as a viver com compromisso um cristianismo genuíno e não aquele que nós gostaríamos que fosse o cristianismo. Devemos levar em conta que a nossa conversão deve ser completa, sem a observação dos valores do mundo. É isso que o apóstolo nos mostra quando legitima a participação da mulher no culto: mulher excluída, é acolhida, fazendo também parte da liderança que fala e realiza o culto e a obra missionária. Mas com uma ordem diferente do mundo: com o cabelo preso, penteado, sem raspar (costume masculino) ou andar com ele solto (costume de prostitutas) ou ainda soltá-lo no culto (prática de religiões pagãs). Todos e todas são chamados e chamadas para participar da realidade do cristianismo, desde que convertidos e com novos valores de vida e conduta.
            Tenhamos em mente o exemplo do próprio apóstolo e tenhamos o amor cristão, sem desprezar pessoas por cor, sexo ou posição social. O próprio Jesus nos dá mostras de que no viver de acordo com a vontade de Deus, no viver segundo os padrões do Evangelho, temos que demonstrar mudanças. Paulo viveu e pregou isso, pelo menos escreveu textos que mostram que esse era o seu pensamento, inspirado pelo Espírito Santo. Em vez de colocarmos palavras na boca do apóstolo, devemos lê-lo com a devida atenção, livre de preconceitos pessoais, tentando aproximar-nos do que ele escreveu e não do que interpretaram dele. É isso que pudemos alcançar um pouco mais diante desse estudo.
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