Conferencista Edimilson Garcia

sábado, 14 de maio de 2011

1 REIS 2


INTRODUÇÃO
    Como é difícil ler a Bíblia! Ou caímos no extremo de que só vale para a nossa situação (esquecendo daquela que envolve o texto quando ele foi escrita) ou a achamos ultrapassada, era só para os antigos. E o Antigo Testamento então? Parece tão distante, sem ligação com os nossos dias.
    Mas isso não é verdade! Por isso, nos dedicamos neste estudo em uma pequena porção da Palavra, em uma perícope, do Antigo Testamento. Vamos ler o texto de 1 Rs 21, que trata da vinha de Nabote. Quando dizemos que vamos "ler" o texto, queremos dizer que vamos verificar alguns pontos referentes ao mesmo, como se segue:
  1. Contexto Maior: toda a atividade de Elias e o que cercou o seu tempo;
  1. Contexto Menor: o texto de 1 RS 21. Aqui, vamos nos deter nos aspectos: histórico, literário e teológico;
  1. O texto para os nossos dias: conhecendo o que cercou o texto na sua época, vamos trazer o texto para a atualidade, juntamente com seu contexto.
    Diante disso, veremos que existe mais semelhança do que podemos imaginar do texto, da sua época, com a situação atual.

I – O CONTEXTO MAIOR (Estaremos trabalhando basicamente com os textos bíblicos nesta parte):
    Entendemos como contexto maior um todo de textos correspondente a uma perícope (porção da Palavra de Deus). Todos os textos que, mesmo até tratando de assuntos variados, estão ligados por algum motivo à perícope, são parte do contexto maior. No nosso estudo, o texto escolhido está no primeiro livro de Reis, capítulo 21, um texto que trata sobre a Vinha de Nabote, como segue:
Depois destas coisas, tendo Nabote, o jezreelita, uma vinha em Jezreel, junto ao palácio do rei Acabe, rei de Samaria, disse este a Nabote: Dá-me a tua vinha, para que me sirva de horta, porque está vizinha, ao lado da minha casa. E te darei por ela outra vinha melhor, ou, se for do teu agrado, dar-te-ei o seu valor em dinheiro.
Porém Nabote disse a Acabe: Guarde-me o Senhor de que eu te dê a herança de meus pais.
Então Acabe veio desgostoso e indignado à sua casa, por causa da palavra de Nabote, o jezreelita, lhe falara: Não te darei a herança de meus pais. Deitou-se na sua cama, voltou o rosto, e não comeu pão. Veio ter com ele Jezabel, sua mulher, e lhe perguntou: Por que está teu espírito tão desgostoso, e não comes pão?
Respondeu-lhe ele: porque disse a Nabote, o jezreelita: Dá-me a tua vinha por dinheiro, ou se te apraz, dar-te-ei outra em seu lugar. Porém ele disse: Não te darei a minha vinha.
Então Jezabel, sua mulher, lhe disse: Governas tu, com efeito, no reino de Israel? Levanta-te, e come! Alegre-se o teu coração. Eu te darei a vinha de Nabote, o jezreelita.
Então escreveu cartas em nome de Acabe, selou-as com o sinete dele, e mandou as cartas aos anciãos e nobres que havia na sua cidade e habitavam com Nabote. Escreveu nas cartas: Apregoai um jejum, e ponde a Nabote diante do povo. Ponde defronte dele dois homens, filhos de Belial, que testemunhem contra ele, dizendo: Blasfemaste contra Deus e contra o rei. Depois levai-o para fora, e apedrejai-o, para que morra.
Os homens da sua cidade, os anciãos e os nobres que habitavam na sua cidade, fizeram como Jezabel ordenara, conforme estava escrito nas cartas que lhes mandara. Apregoaram um jejum e puseram a Nabote diante do povo.
Então vieram dois homens, filhos de Belial, e sentaram-se defronte dele, e testemunharam contra Nabote, perante o povo, dizendo: Nabote blasfemou contra Deus e contra o rei. Assim o levaram para fora da cidade e o apedrejaram, e morreu.
Então mandaram dizer a Jezabel: Nabote foi apedrejado, e morreu. Ouvindo Jezabel que Nabote fora apedrejado, e morrera, disse a Acabe: Levanta-te, e possui a vinha de Nabote, o jezreelita, a qual ele te recusou dar por dinheiro. Nabote já não vive, mas é morto.
Ouvindo Acabe que Nabote era morto, levantou-se para descer à vinha de Nabote, o jezreelita, a fim de tomar posse dela. Então veio a palavra do Senhor a Elias, o tisbita: Levanta-te, desce para encontrar-te com Acabe, rei de Israel, que está em Samaria. Ele está na vinha de Nabote, desceu até lá para tomar posse dela.
Dir-lhe-ás: Assim diz o Senhor: Não mataste e tomaste a herança? Então lhe dirás: Assim diz o Senhor: No lugar em que os cães lamberam o sangue de Nabote, lamberão o teu sangue, o teu mesmo.
Disse Acabe a Elias: Já me achaste, ó inimigo meu? Respondeu ele: Achei-te, porque te vendeste para fazer o que é mau aos olhos do Senhor. Trarei o mal sobre ti, lançarei fora a tua posteridade, e arrancarei de Acabe todo o homem, escravo ou livre, em Israel. Farei a tua casa como a de Jeroboão, filho de Nebate, e como a casa de Baasa, filho de Aías, por causa da provocação com que me provocaste à ira, fazendo Israel pecar.
Também acerca de Jezabel disse o Senhor: Os cães comerão a Jezabel junto ao antemuro de Jezreel. Quem morrer de Acabe na cidade, os cães o comerão, e o que morrer no campo, as aves do céu o comerão.
Não houve ninguém como Acabe, que se vendeu para fazer o que era mau aos olhos do Senhor, porque Jezabel, sua mulher, o instigava. Fez grandes abominações, seguindo os ídolos, conforme tudo o que fizeram os amorreus, os quais o Senhor lançou fora da sua possessão, de diante dos filhos de Israel.
Quando Acabe ouviu estas palavras, rasgou as suas vestes, cobriu-se de pano de saco, e jejuou. Dormia em sacos, e andava humildemente. Então veio a palavra do Senhor a Elias, o tisbita: Não viste que Acabe se humilha perante mim? Portanto, visto que se humilha perante mim, não trarei este mal nos seus dias, mas nos dias de seu filho o trarei sobre a sua casa. ( Extraído da Bíblia de Referência Thompsom com versículos em cadeia temática.)
    Como pudemos ver, este é um texto que fala da questão do desejo de poder. Acabe queria a vinha de Nabote, que se recusou a vender por ser herança de sua família. Contrariado com isso, Acabe acaba aceitando que Jezabel interfira na história e crie uma situação onde Nabote acaba sendo morto. O rei consegue a vinha, mas novamente Elias (dizemos "novamente" pois este profeta já havia aparecido em outros momentos na história de Acabe), sendo mandado pelo Senhor, se levanta para recriminá-lo. Como Acabe acaba se arrependendo, a profecia da morte de Jezabel e da extinção da Casa de Acabe fica para depois da sua morte.
    Agora, estamos nos propondo a desenvolver sobre o contexto maior deste texto. O que faz este texto estar dentro de um contexto? O profeta Elias e toda a atividade desse profeta (que aparece na nossa perícope) que está interligando uma série de acontecimentos. Esses, por sua vez, fazem o nosso contexto maior. Dito isso, vamos desenvolver sobre este profeta, mencionando que falaremos de todo o contexto maior que vai de 1 Rs 17 até 2 Rs 2.

Elias: "O profeta do Antigo Testamento mais falado no Novo Testamento" (Baxter, J. S. Examinai as Escrituras - Juízes a Ester, vol. II, Edições Vida Nova, São Paulo, 1993, p. 117)

    "Elias aparece de repente em 1 Rs 17:1" (Asurmendi, J. O profetismo: das origens à época moderna, Edições Paulinas, São Paulo, 1988, p. 20). Deve ter nascido em Tisbete (Galiléia), de acordo com o mesmo texto citado acima, que diz o seguinte: "Ora, Elias, o tisbita, dos moradores de Gileade, disse a Acabe: Tão certo como vive o Senhor, Deus de Israel, perante cuja face estou, nem orvalho, nem chuva haverá nestes anos senão segundo a minha palavra.". Juntamente com Eliseu (o maior operador de milagres do Antigo Testamento e o profeta que recebeu porção dobrada do Espírito - Elias ungiu Eliseu como seu sucessor a partir de uma orientação do Senhor. Quando Elias foi levado pelo carro de fogo aos céus, Eliseu ficou com sua capa. Alcançou uma estatura espiritual fantástica e prenunciava, como Moisés, a vinda do maior dos profetas. Muitos de seus milagres, como os de Cristo, foram obras de misericórdia), atuou como profeta principalmente nos tempos de Acabe (Acabe reinou 22 anos, aproximadamente entre os anos de 874 a 853 a. C.) e Jezabel.
Sua tarefa mais importante foi combater o baalismo no reino do Norte, o reino das dez tribos, como podemos ver nos textos de 1 Rs 17 até 2 Rs 22. Apareceu trazendo a Acabe uma profecia que dizia que sobre o povo viria uma grande fome e uma forte seca devido à idolatria. Isso porque Jezabel, que era sidônia, era devota de Baal - o deus da fertilidade, e trouxe para os israelitas esse culto à Baal. As festas a esse deus se espalharam no reino e o Senhor se viu relegado a segundo plano pois o "Grande Eu Sou" (Êx 3:14) é quem cuidava de tudo. Mas, de repente, o povo começou a acreditar que o deus da rainha era poderoso para auxiliar nas colheitas.

Após a profecia de Elias, ele foi se esconder num deserto a leste do Jordão, enquanto a fome se adiantava. Foi durante esse período, alimentado de maneira milagrosa em duas situações:
  • em uma caverna próxima ao riacho Querite, era alimentado por corvos. Mas devido à seca, o riacho ficou sem água;
  • da caverna, foi para uma cidade chamada Sarepta, onde uma viúva pobre já aguardava a morte. Só tinha farinha e azeite para fazer um bolo para ela e seu filho. Como a fome e a seca continuavam, iam morrer. Elias pede para ele um bolo e, depois disso, a mulher deveria fazer para ela e seu filho, pois assim diz o Senhor Deus de Israel: A farinha da panela não se acabará, e o azeite da botija não faltará, até o dia em que o Senhor dê chuva sobre a terra (1 Rs 17:14). E assim aconteceu.
    Logo depois desse episódio, o filho da viúva adoece e morre. Elias é chamado e o menino ressuscita. Após três anos (1 Rs 18:1ss), Elias aparece diante de Acabe, marido de Jezabel (devota de Baal) e lhe faz um desafio: dois sacrifícios seriam oferecidos, sendo que um ao Senhor Deus, e o outro ao deus Baal. O sacrifício deveria ser consumido com fogo, só que não ateado por homens e sim, pelo ser divino verdadeiro, isto é, seria reconhecido como Deus, aquele que enviasse o fogo (ou o Senhor Deus ou o deus Baal). Chegando o horário marcado, os profetas de Baal começaram o ritual, mas nada aconteceu. Chegou a vez de Elias, que achava ser o único que não havia se dobrado a Baal (v. 22). Ele faz o pedido do fogo ao Senhor e nem acabou de pedir, o fogo desceu da parte do Senhor, fogo este que queimou todo o sacrifício, secou a água em volta e derreteu as pedras do altar (v. 38). Foi uma grande vitória!
    Só que a seca continuava e Acabe, como rei, continuava a clamar por chuva. Depois desse acontecimento no monte Carmelo, Elias conforta Acabe dizendo que virá a chuva. Depois de orar, disse ao moço que o acompanhava: Sobe, e olha para a banda do mar. E ele subiu, olhou e disse: Não há nada. Então disse Elias: Volta lá sete vezes. (1 Rs 18:43). Logo veio a chuva e Elias, vitorioso, teve que fugir. O problema era que Jezabel não se deixava convencer e queria tirar-lhe a vida. O profeta fugiu para o sul, passando pelo deserto de Neguev, onde sentiu fome. É confortado por Deus em seu desespero (através de um enviado), com pão e água. Continuou sua fuga até o monte Horeb (o Sinai) e, depois de esperar o momento exato e manifestação certa proveniente do Senhor ( Em 1 Rs 19:9-13 mostra essa situação: primeiro passa um vento forte, depois um terremoto, depois fogo. Depois disso veio uma brisa suave e foi aí que Elias reconheceu que o Senhor estava. Além de receber sua missão, o v. 18 revela que Elias não está só, pois ainda havia outros 7 mil que não tinham se dobrado a Baal), recebeu no Horeb a sua missão: estabelecer o verdadeiro Israel, através do ato de "ungir três pessoas, a saber: um novo rei para Israel, Jéu; um outro para Damasco, Hazael; e um profeta que fique em seu lugar" (Asurmendi, S. J. O profetismo - das origens à época moderna, Edições Paulinas, São Paulo, 1988, p. 24). Ao partir de Horeb, Elias encontra Eliseu (1 Rs 19:19ss) e este último o segue, entendendo a sua vocação.
    Depois desse momento, Acabe passa por um momento de vitórias em suas guerras. Os siros foram derrotados e o seu rei, Ben-Hadade, deveria ser morto, juntamente com todo povo da Síria, segundo ordens do Senhor Deus, dada através de um profeta. Mas Acabe não mata Ben-Hadade e o profeta prediz a morte de Acabe.
Seguindo dentro deste contexto de vitórias e poder, Acabe pede a Nabote sua vinha que se recusa a fazer tal e acaba morto de forma injusta, com mentiras. Então, Elias ameaça a Acabe, que se arrepende (1 Rs 21:29), e também a Jezabel, que acaba morta e os cães devoram sua carne (2 Rs 9:30-37 - durante o período profético de Eliseu).
Após a morte de Acabe, Acazias, seu filho, passa a ser rei, fazendo o que é mau perante o Senhor (1 Rs 22:53). Quando este adoeceu, Elias se levanta e informa-o que do seu leito já não sairia mais, senão morto (2 Rs 1:4). Dois capitães de cinqüenta soldados, com estes últimos, são consumidos quando tentam ir atrás de Elias por fogo vindo do céu. O terceiro capitão e os seus soldados convencem Elias (depois que este recebeu orientação do Senhor) a descer do cume do monte. O profeta informa ao capitão a causa da sentença de morte ao rei: idolatria (2 Rs 1:16). Assim, o rei morre e, depois disso, Elias é levado aos céus, num carro de fogo com cavalos de fogo (2 Rs 2:11), num redemoinho. A Eliseu, é prometida a porção dobrada do Espírito que Elias recebera e isso também se cumpriu.
II – O CONTEXTO MENOR:
Cabe-nos agora, nos deter no contexto menor, na perícope por nós escolhida, que é o capítulo 21 de 1 Reis. Destacamos que este texto não está exatamente nesse lugar por acaso (como qualquer outro). Com isso, iremos situar o texto no contexto de sua época, levantando seus aspectos históricos, literários e teológicos. Não dá para entender um texto bíblico nos dias de hoje, de maneira completa quanto ao seu significado, se não retornarmos aos dias do seu surgimento e entendê-lo de acordo com o que ele quis dizer naqueles dias. Com isso, passemos ao estudo do texto.

1. Contexto Histórico:

    Acabe desenvolveu seu reinado de 874 a 853 a.C. . Segundo o texto de 1 Rs 22. 1 e 2, que aparece depois do episódio da vinha de Nabote, três anos não aconteceram guerras entre a Síria e Israel. Só que no terceiro ano de Josafá, rei de Judá, veio ter com o rei de Israel, Acabe, e ambos empreenderam batalha contra a Síria, pois Ramote-Gileade já era inimigo desses reis (Acabe e Josafá) e era preciso empreender tal batalha contra a Síria para que isso se oficializa-se. Mas nessa batalha contra a Síria, Acabe morreu. Como a ordem do rei siro era apenas a de atacar o rei de Israel, Acabe se disfarçou e entrou na peleja, como um simples lutador e não como um rei. Josafá permaneceu no carro e, sendo atacado, gritou e souberam que ali não estava o rei de Israel. Mas, como o rei Acabe morreu sendo que a ordem era atacar o grande, o rei de Israel, e ele estava disfarçado? Uma flecha atirada ao acaso (1 Rs 22.34) o acertou e ele acabou morto.
    Esses foram os acontecimentos depois do caso da vinha de Nabote. Depois do desejo do rei conseguir a vinha e não medir esforços para tal, passaram-se três anos e, na batalha que aconteceu depois desse período de tempo, o rei Acabe morreu. Com isso, a questão da vinha de Nabote deve ter acontecido por volta do ano 856 a.C. , já que o último ano desse rei deve ter sido 853 a.C. Agora, antes do texto da vinha de Nabote, Acabe vinha de uma vitória numa batalha contra o exército siro. Acabe se sentia mais forte do que nunca. Durante seu reinado, o reino foi atingido por uma grande seca e fome. Isso dificulta a qualquer soberano no comando de uma nação. Mas, quando da vitória sobre o exército siro, Acabe se vê fortalecido. Como a vinha de Nabote estava perto da casa do rei e era até formosa, Acabe sente o desejo de tê-la como parte do seu jardim. Com o fortalecimento trazido ao rei depois da guerra, ele queria desfrutar dele. A sua vontade era continuar aumentando suas posses e, diante disso, faz a proposta pela vinha de Nabote.
    Elias e Acabe tiveram um grande conflito no Monte Carmelo, devido à idolatria ao deus Baal. Mas o conflito que fez com que o profeta denunciasse o fim da Casa de Onri foi o que envolveu a vinha de Nabote. A situação para que o rei ficasse com a vinha foi forjada e Nabote foi visto como criminoso e, "como a propriedade de criminosos executados passasse automaticamente para a coroa, após condenar Nabote à morte, Acabe conseguiu ampliar a propriedade real em Jezreel." (Metzger, M. História de Israel, Editora Sinodal, São Leopoldo, 1989, p. 86).
O desejo por terras e poder levou a Acabe consentir na morte de Nabote. Além disso, os reis passavam por um processo de corrupção e este texto mostra isso. O rei, levado pelo desejo, compactua com uma mentira. O veredicto da Bíblia com relação a todos os reis até Acabe, inclusive este, que reinaram em Israel é um só: eles eram maus. Acabe já se prostituíra (com idolatria) e isso lhe rendia esse atributo. O desejo pela vinha de Nabote e o forjar de uma situação para se apoderar dela (fazer qualquer coisa, até mentir, para a obtenção do que se quer) mostram o quanto Acabe, como os outros reis, eram iníquos. Com isso, o desejo por poder era o contexto histórico.

2. Contexto Literário:

    A nossa perícope se situa entre dois momentos de guerra que o rei Acabe empreendeu. Na primeira, contra o rei Bem-Hadade, que deveria ser morto e Acabe desobedeceu. Na segunda, Acabe morreu. Na primeira guerra, por ter desobedecido ao que o Senhor ordenou, Acabe foi sentenciado com a morte que o alcançou no segundo combate.
O texto da vinha de Nabote funciona como uma ligação entre uma guerra e outra. Nesse texto, além de ser confirmada a morte de Acabe, é sentenciada toda a sua casa: por seus maus caminhos, por fazerem o que é mau perante o Senhor. Nesse momento, Acabe teve uma chance para o arrependimento e, porque este aconteceu, a destruição de maneira trágica de sua casa ( Jezabel, sua esposa, cai da janela do palácio e, antes do seu enterro com honras por ser filha de rei, os cães devoram suas carnes; Jéu, depois de ungido rei, acabou com o resto da casa de Acabe que havia permanecido viva) foi adiada para depois de sua morte.

Além disso, essa perícope está dentro do tempo das profecias de Elias. Ele era um profeta que sempre estava ao lado do oprimido:

  • o povo seguia, por imposição e jogo de interesses, o deus proposto pelo rei e Elias diz sobre fome e seca por causa da idolatria trazida pela mulher do rei (Jezabel);
  • A viúva que já não tinha o que comer junto com seu filho e ele aparece e, de forma milagrosa, Deus sustenta a casa;
  • Essa mesma viúva não teria como se sustentar depois da morte de seu filho, sua fonte de renda, e Elias o ressuscita;
  • Nabote, morto injustamente, é defendido pelo profeta.
Seu período profético foi marcado por essas defesas com relação aos oprimidos.

3. Contexto Teológico:

    Acabe, como rei, se colocava na posição de "o melhor", "o maioral". Isso é até natural em alguém quando se ocupa uma posição de liderança. Pelo texto, podemos ver que Deus não vê assim, pois ele (o texto) trata "do valor incondicional do direito divino diante do qual todos são iguais e ao qual o próprio rei está submisso" ( G. V. Rad. Teologia do Antigo Testamento, vol. II, Editora Aste, São Paulo, 1986, p. 27). Isso quer dizer que, mesmo sendo o soberano, o rei tinha Alguém (Deus) que estava acima dele. E para o Senhor Deus, todos são iguais, com os mesmos direitos, ainda que um comande e outros sejam comandados. Desta situação, o rei não pode fugir; precisa ser submisso. O fato de aceitar e fazer qualquer coisa para a obtenção da vinha mostra que o rei queria (e acretitava) poder estar acima, como pessoa, de qualquer um, inclusive de Nabote. O rei tinha o seu poder, mas o maior soberano era Deus. Tanto que ao rei é dada a sentença do fim da sua dinastia, pois Deus decidiu que não poderia continuar, devido aos seus maus caminhos. Todos são guardados por Deus e Acabe pode até ter pensado que por ele ser o soberano, Deus cuidaria e só ajudaria a ele. Mas, o profeta aparece denunciando que Deus vê todos de igual modo e Acabe, que fez algo errado diante d'Ele, deve ser punido. Isso mostra um aspecto teológico interessante: os bons são guardados por Deus e os ruins são condenados por Ele. Por mais que, muitas vezes, pareça que os ruins são vitoriosos, no final o Senhor Deus cuida do oprimido e bom e condena o ruim e dominador.
III – ELIAS NOS DIAS DE HOJE:
    Entre o mundo de Elias e o nosso, fazendo ainda uma analogia maior com o nosso país, existem muitas similaridades. Vivemos uma forte crise social e econômica. Existe já a tentativa de uma superação disso, mas, se continuar essa tentativa, ainda leva algum tempo para essa superação. No nosso país, se morre demais e muitas mortes são fruto de assassinatos dolosos. Muitas crianças morrem por falta de alimentação e vitaminas necessárias. Além disso, como na época do profeta, temos instituições apodrecidas, enfermas e corruptas. A idolatria continua crescendo, grandes manifestações espirituais, culto a mortos, e todo tipo de coisas que tomam o primeiro lugar de Deus em nossas vidas.
    Muitos possuem benefícios gerados pela falta de apoio aos mais necessitados. Os poderosos se apoderam do que é dos mais pobres. Vemos aí a figura de Acabe se apossando da vinha de Nabote. E, concluindo, vemos a questão religiosa atual bem parecida com a da época de Elias. Naquele tempo, o povo, devido à grande mistura de cultos, perdeu a real identidade de "Povo de Deus". Hoje não é diferente. E mais: até o povo que hoje se denomina realmente seguidor de Cristo (os cristãos, isto é, nós), muitas vezes têm atitudes contrárias à Palavra. Não são todos, mas vemos igrejas ditas evangélicas que expulsam o demônio no tapa, e não no Nome de Jesus. Em vez de influenciar o mundo por ser diferente, age como o mundo age, ou até pior. Esperamos que, com o estudo da Palavra, possamos ver essas situações parecidas do passado e também a "volta por cima" que foi dada, nos inspiremos a aprender com Elias a viver num tempo como aquele. Devemos ser iguais a ele, denunciando o erro, e não compactuando com ele. Assim, o fogo do Poder de Deus irá cair sobre nós também e descobriremos quem ainda não "dobrou o joelho a Baal".

Forte abraço.

Em Cristo,
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