Conferencista Edimilson Garcia

quinta-feira, 26 de maio de 2011

SALMO 12 - MÉTODOS EXEGÉTICOS


            O trabalho exegético é de suma importância para o estudo profundo e realizado de forma a se entender realmente a Bíblia. Muitas vezes nos prendemos só na mensagem que o texto nos traz , ou pior, que queremos que ele nos traga. Fazemos um grande salto hermenêutico, trazendo o texto para a nossa realidade sem nos preocuparmos com o que ele realmente queria transmitir quando surgiu.
             Este texto mostra a aplicação, no Salmo 12, de algumas críticas da exegese que são de fundamental importância para o estudo da Bíblia, uma vez que nos permite ir por um caminho tão complexo, mas de suma importância para o comprometimento com a realidade do texto Bíblico.
            O Salmo 12 foi analisado utilizando os instrumentais da Crítica Textual, Crítica Literária e da Crítica da Tradição. Diante de disso, nos levará a uma conclusão a respeito do texto e do estudo realizado, algo importante para o desenvolvimento da prática pastoral nos estudos e pregações, principalmente.


1. Texto em Hebraico (cada linha é um versículo)
לַמְנַצֵּחַ עַל־הַשְּׁמִינִית מִזְמוֹר לְדָוִד ׃
הוֹשִׁיעָה יְהוָה כִּי־גָמַר חָסִיד כִּי־פַסּוּ אֱמוּנִים מִבְּנֵי אָדָם ׃
שָׁוְא יְדַבְּרוּ אִישׁ אֶת־רֵעֵהוּ שְׂפַת חֲלָקוֹת בְּלֵב וָלֵב יְדַבֵּרוּ ׃
יַכְרֵת יְהוָה כָּל־שִׂפְתֵי חֲלָקוֹת לָשׁוֹן מְדַבֶּרֶת גְּדֹלוֹת ׃
אֲשֶׁר אָמְרוּ לִלְשֹׁנֵנוּ נַגְבִּיר שְׂפָתֵינוּ אִתָּנוּ מִי אָדוֹן לָנוּ ׃
מִשֹּׁד עֲנִיִּים מֵאַנְקַת אֶבְיוֹנִים עַתָּה אָקוּם יֹאמַר יְהוָה אָשִׁית בְּיֵשַׁע יָפִיחַ לוֹ ׃
אִמֲרוֹת יְהוָה אֲמָרוֹת טְהֹרוֹת כֶּסֶף צָרוּף בַּעֲלִיל לָאָרֶץ מְזֻקָּק שִׁבְעָתָיִם ׃
אַתָּה־יְהוָה תִּשְׁמְרֵם תִּצְּרֶנּוּ מִן־הַדּוֹר זוּ לְעוֹלָם ׃
סָבִיב רְשָׁעִים יִתְהַלָּכוּן כְּרֻם זֻלּוּת לִבְנֵי אָדָם ׃
 

Ao mestre de canto. Em tom de oitava. Salmo de Davi
1. Salva-nos, Senhor, pois não existe mais o piedoso; os fiéis desapareceram dentre os filhos dos homens.   
2. Cada um fala com falsidade ao seu próximo; falam com lábios lisonjeiros e coração dobre.   
3. Corte o Senhor todos os lábios lisonjeiros e a língua que fala soberbamente,   
4. os que dizem: Com a nossa língua prevaleceremos; os nossos lábios a nós nos pertencem; quem sobre nós é senhor?   
5. Por causa da opressão dos pobres, e do gemido dos necessitados, levantar-me-ei agora, diz o Senhor; porei em segurança quem por ela suspira.   
6. As palavras do Senhor são palavras puras, como prata refinada numa fornalha de barro, purificada sete vezes.   
7. Guarda-nos, ó Senhor; desta geração defende-nos para sempre.   
8. Os ímpios andam por toda parte, quando a vileza se exalta entre os filhos dos homens.   
  

            1. Explicação do instrumento a ser usado no momento de cantar esse Salmo e atribuição do mesmo à Davi: v. 1.

2. Invocação e Queixa: vs. 1-2.
                        - Invocação e apelo: v. 1a: “Salva-nos, Senhor”;
                        - Queixa: v. 1b-2.
            3. Maldição: vs. 3-4.
                        - praga (a maldição): v. 3;
                        - Justificativa: v. 4.

            4. Anúncio de Salvação: v. 5.
            5. Hino de Confiança: vs. 6-8.
                        - Confiança na Palavra do Senhor: v. 6;
                        - Confiança na Prática e agir do Senhor: v. 7;
                        - Observação e constatação: v. 8.


            Este texto se caracteriza como um Salmo de súplica e lamento individual, isto é, de queixa. Outro Salmo de lamentação pode ser caracterizado por um lamento coletivo (talvez por uma tragédia nacional). O livro de Lamentações de Jeremias é um livro com essa característica. Envolve uma relação entre o Senhor, o fiel e o inimigo.

            Com relação à estrutura de um Salmo de queixa, normalmente ela tem a seguinte composição:

“a) um brado pedindo auxílio;
 b) uma descrição da tristeza ou infelicidade do salmista, freqüentemente misturada com apelos;
 c) as razões porque o Senhor deveria intervir; finalmente;
 d) a maioria dos lamentos terminam com a afirmação de uma certeza: o Senhor já ouviu a prece (os salmos 39 e 88 constituem importantes expressões); por fim,
 e) o final muitas vezes inclui um voto de louvor a Deus por causa da libertação.”

            No Salmo em questão, vemos que ele também segue essa estrutura. Nos Vs. 1-2, o autor se queixa diante do Senhor, entristecido com o fato de pessoas fiéis e leais que conviviam com ele estarem desaparecendo. As pessoas estão se tornando mentirosas e isso aflige o coração do autor. Essa constatação de que os fiéis estão desaparecendo leva o autor a um desespero tão grande que ele acaba praguejando contra esses infiéis (vs. 3 e 4). Mas a confiança no Senhor é tão grande que ele (o autor), até coloca na boca d’Ele o anúncio de Salvação (v. 5) e mais: Declara a sua confiança pessoal no Senhor (vs. 6-8), baseado em sua Palavra (v.6), na prática do Senhor (v. 7) e na constatação pessoal (v. 8). O Hino de Confiança do salmista mostra que realmente a força, a solução, o auxílio para quem sofre vem do Senhor que realmente ouve a oração de quem clama.


  

            Este método visa chegar até ao autor do texto, sua localização histórica, isto é, data que foi produzido, localização geográfica (campo, cidade etc), bem como a linguagem usada pelo autor.

A. O Autor:

                        “A Bíblia Hebraica atribui 73 salmos a Davi, 12 a Asaf, 11 aos filhos de Coré, 2 a Salomão, 1 a Moisés, a Emã e a Etã. Os outros são anônimos.” Não podemos declarar a certeza de que este Salmo seja realmente de Davi. A tradição judaica atribui a ele a autoria. Mas não é possível se afirmar com exatidão os autores dos Salmos como, por exemplo diz SELLIN-FOHER:

“Os títulos, quase sempre de origem secundária, objetivamente nada significam quantos aos verdadeiros autores e à idade real dos Salmos. No caso de alguns Salmos ligados às corporações de  cantores, o máximo que se pode pensar é que alguns cânticos foram compostos por elas.”

            Mesmo não podendo afirmar com exatidão (apenas atribuir como a tradição o fez, a Davi) quem seria o autor do Salmo, podemos identificar suas características. O autor desse Salmo é uma pessoa que realmente acredita em Deus como Salvador, mesmo diante das adversidades. Está vendo seus amigos desaparecendo e está muito sensível a esse fato. Ele acaba confiando no Senhor não só para sua salvação, mas também para a salvação dos fiéis que ainda restam. Sem contar que demonstra possuir um grande conhecimento da Lei, uma vez que sabe da necessidade de fugir da mentira (v. 2), conhece a justiça do Senhor (v. 3 - Maldição), além de conhecer as promessas do Senhor para com os fiéis e a justiça para com os ímpios (vs. 5-8).
  

            “O Salmo é uma oração nascida no círculo dos ‘piedosos’ (v. 2) que também se chamam ‘fiéis’ (v. 2), ‘necessitados’ e ‘pobres’ (v. 6).”

            Temos grande dificuldade para saber a data da composição dos Salmos, uma vez que os pontos de apoio históricos e concretos aparecem de um modo muito discreto. Esse mesmo problema encontramos com relação à autoria, uma vez que o mundo antigo não se preocupava com direitos autorais.

Apesar da tradição judaica atribuir esse salmo a Davi, há uma grande possibilidade que o mesmo tenha, no mínimo, tomado forma final no pós-exílio. Defendem essa posição, por exemplo, SELLIN-FOHRER. E, como já observamos, o autor desse Salmo demonstra ser um grande conhecedor da Lei. Pela história de Israel, podemos identificar em Esdras uma real preocupação com o fechamento da Lei dos judeus, o que nos reporta para depois do Exílio Babilônico. Com isso, entendemos que esse Salmo foi escrito por Davi realmente, pelo menos a idéia desse texto, e que após o Exílio Babilônico tomou forma final, visto que o autor conhece a Lei que foi fortalecida no tempo desse Exílio (para a identidade do povo judeu em terra estranha).
            

            Tudo indica que o autor escreve a partir da cidade, uma vez que sua linguagem não inclui elementos do campo. Como era muito difícil ter o texto escrito (as pessoas não o possuíam), a linguagem do texto era importante para ser transmitido. O povo guardava mais facilmente se fossem usadas do seu próprio ambiente. Ele está entre o ciclo de pessoas que se preocupavam com a Lei. Ele possuía grande conhecimento desta e falava com linguagem de alguém que vivia na cidade.

2. Crítica da Tradição

                         Os Salmos eram poesias com música e cantados nas festas, encontros e no Templo dos judeus. Com isso, entendemos que os 150 Salmos existentes hoje no texto bíblico seriam os mais cantados na época da compilação.

Quanto a transmissão, os autores Sellin-Fohrer afirmam que os “cânticos podem ser aprendidos e transmitidos, cada um separadamente pelos canais da tradição oral. Mas, bem cedo, razões de ordem prática fizeram com que eles fossem reunidos em coleções e consignadas por escrito.”

            Por estar no contexto da cidade, supomos que os transmissores deste Salmo são os cantores, os sacerdotes e levitas que atuavam no Templo e participavam das estas judaicas, bem como de todos os encontros do povo para a celebração. Alguém devia saber como cantar e começava a fazê-lo no meio da celebração. Com isso, o ambiente de transmissão era o culto e festas. A transmissão foi primeiramente oral e posteriormente foi escrito, registrando a memória do povo.

            A transmissão dos Salmos foi realizada por pessoas que trabalhavam no Templo, que se preocupavam com o canto (os Levitas) e com a preservação das tradições do povo judeu. É claro que todos deviam se encarregar dessa tarefa, ensinando as crianças desde pequenas. Mas ainda assim, é importante e talvez fundamental lembrarmos que a atividade daquelas pessoas que trabalhavam no templo foi muito importante para a transmissão dos Salmos. Como já dissemos, estes não foram os únicos que se preocuparam com a transmissão dos Salmos e Carlos Mesters nos lembra algo muito interessante a esse respeito:

“Se os 150 salmos foram transmitidos e chegaram até nós, isto não se deve à ação do salmista, mas sim do povo. O povo se reconhecia neles, que eram a expressão da sua fé, esperança da sua fé, esperança e amor, da sua caminhada e luta. Por isso os cantava, selecionava e conservava. Assim se chegou dos salmos ao livro de salmos.”

            Ou seja, além da ação dos sacerdotes, cantores, e todos aqueles que trabalhavam no Templo ou estavam de uma maneira ou de outra envolvidos com o trabalho religioso, que teve uma atuação muito importante para a transmissão dos Salmos, a identificação que o povo tinha com eles (os Salmos) foi crucial para que os Salmos chegassem até nós.



            A Crítica da Forma se preocupa com o gênero do texto, bem como o seu “lugar vivencial” (o Sitz in Leben) e a intenção com que ele foi feito.


A. GÊNERO DO SALMO

            “O Sl 12 constitui uma súplica (...). Inclui o ternário clássico: Deus-eu-inimigo com suas relações. No final, expressa-se a confiança no auxílio e amparos divinos.”. Na parte onde nos detivemos na explicação da estrutura do Salmo, já comentamos a que gênero este Salmo pertence. Ele envolve uma súplica ao Senhor, isto é, um pedido de auxílio, uma queixa, uma reclamação diante dos problemas que tem passado e visto em sua volta, seguido de um praguejamento e uma afirmação de fé.



Entendemos que este Salmo vem do contexto da cidade. Com isso, ele se desenvolve no ambiente dos Cultos e Festas judaicas e era cantado nos mesmos. Mas não podemos nos esquecer que ele se trata de uma oração, oração esta cantada sem perder de vista seu caráter profético, uma vez que o v. 5  trata da atuação salvífica do Senhor para com os que estão oprimidos. O profeta sempre se levantava para denunciar, ou o pecado, ou o que deve ser feito para agradar o Senhor, ou ainda o opressor e a salvação do oprimido. Por isso o caráter profético nesse Salmo.



Explicação inicial: Comentário de como era cantado o Salmo.

V. 1 - Aqui o salmista reclama pelo socorro do Senhor. Os hasid (piedosos) estão em apuros, acometidos por pessoas que não seguem a Lei do Senhor. O salmista tem a impressão que os hasid estão desaparecendo e ele está ficando só.

V. 2 - As pessoas que permanecem são aquelas que não tem palavra firme. Seus lábios proferem mentiras, o seu coração é duplo. Para o judeu dessa época em que o Salmo foi escrito, é no coração que residem as faculdades da intelectualidade, do conhecimento, da vontade e das decisões, isto é, o centro da vida. Do leb (coração) procedem os atos humanos. Um leb duplo abre possibilidade de duas vontades, dois juízos, tirando a retidão da conduta humana. Isso faz com que as pessoas passem a praticar atos contrários à Lei. Com isso, a deslealdade entre os integrantes da comunidade aparece, prejudicando aquele que é hasid.

V. 3 - O ‘cortar a língua’ dos que não seguem ao Senhor deve ser entendido como uma metáfora: não deve ser o ato de cortar realmente a língua, mas sim o ato de mostrar que eles estão se estribando em próprio conhecimento e não devem proceder assim, dependendo também do Senhor.

V. 4 - Aqui temos clara referência a quem não segue os ensinamentos do Senhor. Ligando com o versículo anterior, estes devem ter suas línguas ‘cortadas’ pelo Senhor, isto é, deixar de falar por sua própria vontade e passar a falar o que é próprio do Senhor.

V. 5 - Este versículo é o central da linguagem profética que envolve esse Salmo. Nele, o salmista coloca como palavra do Senhor a intenção de salvação do que está sendo oprimido por aqueles que não seguem Lei do Senhor.

V. 6 - A Palavra do Senhor é a real, verdadeira, sem mentiras ou falsidades. Portanto, Ele tem prazer em cumprir as suas promessas de salvação.

V. 7 - Como a Palavra do Senhor é verdadeira e Ele promete a salvação, o salmista expressa sua confiança mesmo em meio as dificuldades. Por mais contrária que a situação pareça, se o Senhor promete a saída, Ele não vai falhar.

V. 8 - Com a intervenção do Senhor, os que são contrários a Ele são dispersos, pois somente os que são justos irão permanecer com o agir do Senhor.



            Como entendemos que o v. 5 é o texto central desse Salmo, temos que partir dele para a explicação da intenção. Como nos parece que o Salmo foi desenvolvido na cidade e nesta encontramos o Templo e as Sinagogas, ele pode ter sido difundido mais nas festas e cultos dos judeus. Ele, então, está situado num contexto de profecia e de celebração. Sem contar que se trata de uma oração.

            A pessoa que está preocupada com o desaparecimento dos fiéis se coloca diante do Senhor em oração, pedindo por socorro. Ele se coloca como representante da comunidade de fiéis (intercedendo por estes) que ainda permanecem mesmo sendo atacados pelos ímpios. Essa intercessão parece ser a maior intenção expressa neste texto bíblico. A pessoa que se levanta como aquele que ora coloca os ímpios diante de sua própria maldade. Isso é algo que acontece também na profecia.

            As palavras do Senhor são colocadas como a profecia contra os ímpios. Já que por mais contrária que esteja a situação o Senhor vem e inverte o quadro, pois essa é a sua promessa e Ele não falha, o perseguidor deixa de perseguir e passa à situação de perseguido. Com isso, Suas palavras são libertadoras e salvadoras dos que O buscam. Isso nos faz ver que a palavra do Senhor é sincera, diferente da palavra do ímpio. Essa afirmação constitui um centro para esse Salmo.

CONCLUSÃO

            Nós situamos em nosso texto a formatação final do Salmo 12 no período pós-exílico, no tempo da afirmação da Lei com Esdras. Mas como não sabemos a data exata deste Salmo, só podemos dizer que ele começou a ser recitado no culto e celebrações comuns e de Festas e Cultos. Entendemos que o Salmo é uma forma de expressão da vontade do salmista em ver a atuação do Senhor e provavelmente a situação vivencial do autor do Salmo não estava em conformidade com esse seu desejo. Só que ele confia na atuação do Senhor que acontece mesmo que pareça impossível. Com isso, ele anuncia a salvação no Senhor, uma vez que ele conhece essa atuação, que não falha em cumprir Suas promessas, sendo que uma delas é o cuidar dos justos. A confiança aflora de tal forma que, mesmo ainda não tendo sido cumprida a Palavra do Senhor, Ele acredita na atuação do Senhor. Isso nos ensina uma lição muito grande: mesmo que os ímpios estejam aparentemente em melhor condição que os justos, o Senhor cuida destes últimos, dando aos primeiros a paga por sua atuação.



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