Conferencista Edimilson Garcia

sexta-feira, 27 de maio de 2011

MARCOS 1.40-45


INTRODUÇÃO
  
            Muitas vezes nos preocupamos em ler o texto bíblico apenas como ele está, sem nos preocuparmos com as características do autor, ênfases teológicas, quem realmente escreveu e se este seguiu uma seqüência. Menos ainda nos lembramos que por traz do texto existe uma comunidade que recebeu o material e que este foi feito para dar respostas a inquietações do povo. E ainda achamos que tudo aconteceu da maneira como está relatado, isto é, na mesma seqüência.

            Neste trabalho, estamos utilizando a crítica literária para a interpretação da perícope que se encontra em Mc 1. 40-45. Vamos levantar as características do autor e da comunidade que recebeu o Evangelho, e com isso estaremos observando o contexto maior do nosso texto. Em seguida, vamos nos preocupar com o contexto menor: as perícopes que antecedem e estão posteriores ao nosso texto. Vamos nos preocupar em dizer o que a nossa perícope tem como tarefa dentro desse bloco. Estaremos propondo, logo após essa fase, uma delimitação melhor para essa perícope, observando como ela foi escrita e sua transmissão oral. Para encerrar, vamos nos preocupar com a aplicação da nossa perícope nos dias de hoje.
  
Contexto Maior: O Evangelho de Marcos

            A perícope (o texto) por nós utilizado está em Marcos 1.40-45, como segue:

"Aproximou-se dele um leproso rogando-lhe, de joelho: Se quiseres, podes purificar-me. Jesus, profundamente compadecido, estendeu a mão, tocou-o e disse-lhe: Quero, fica limpo! No mesmo instante, lhe desapareceu a lepra, e ficou limpo. Fazendo-lhe, então, veemente advertência, logo o despediu e lhe disse: Olha, não digas nada a ninguém; mas vai, mostra-te ao sacerdote e oferece pela tua purificação o que Moisés determinou, para servir de testemunho ao povo. Mas, tendo ele saído, entrou a propalar muitas cousas e a divulgar a notícia, a ponto de não mais poder Jesus entrar publicamente em qualquer cidade, mas permanecia fora, em lugares ermos; e de toda parte vinham ter com ele."

            Mas, para entendermos o que esse texto quer dizer e também realizar a crítica literária, precisamos conhecer o contexto maior desse texto, isto é, o livro em que ele está escrito: o Evangelho de Marcos. Dito isso, nos colocamos a fazer alguns comentários a respeito desse texto.
  
1. O Autor

            "A obra chamada 'segundo Evangelho', conforme a ordem do Cânon, não é assinada" (VÁRIOS. Evangelhos Sinóticos e Atos dos Apóstolos, Edições Paulinas, São Paulo, 1985, p. 116). Isso nos faz entender que existe a possibilidade de esse Evangelho ter sido escrito por uma pessoa ou comunidade desconhecidos e, posteriormente atribuído a Marcos, que pode ter sido o iniciador de um trabalho. Mas não dá para saber. O que realmente sabemos é que o livro foi escrito devido a necessidades de uma comunidade, como falaremos mais adiante. Neste momento, vamos nos preocupar com quem é Marcos.

            Pode ser o mesmo João Marcos que o “Atos dos Apóstolos” fala. Ele teria desistido de uma viagem missionária já começada, empreendida pela equipe de Barnabé e Paulo (At 13.5-13). Sua mãe morava em Jerusalém e em sua casa uma comunidade cristã se abrigava quando da libertação de Pedro da prisão (At 12.9-12). É bem provável que Marcos tenha escrito (se foi ele quem realmente o fez e nós entendemos assim) o seu Evangelho com base no testemunho desse apóstolo (Pedro), especificamente quando esteve em sua companhia na "Babilônia" - Roma (1 Pe 5.13).
  
2. Local e Data da Redação:

            Como já falamos, existe a possibilidade de ter sido em Roma. "Essa opinião tem o apoio de autores antigo: Clemente de Alexandria, Jerônimo, Eusébio e Efrém." (Ibid, p.94). Como Marcos não tinha sido apóstolo direto, ele precisaria do respaldo de uma igreja grande e Roma o era. Além disso, Roma era o ambiente pagão onde seria necessário se explicar costumes judaicos, como acontece em Mc 7.2-4.

            Uma segunda possibilidade é que o Evangelho tenha sido escrito em ambiente galileu, pois ressalta a importância da Galiléia: Jesus vem daí (1.9), chama os seus primeiros discípulos (1.16-20) e marca um encontro com seus discípulos após a ressurreição (16.7).

            Quanto à data da redação, também entendemos que foi escrito "em Roma, nas proximidades do ano 64" (J. DELORME. Leitura do Evangelho Segundo Marcos, Coleção Cadernos Bíblicos, Edições Paulinas, São Paulo, 1982, p. 9.) Como Marcos esteve com Pedro em Roma (1 Pe 5.13), é provável que daí tenha saído a escrituração do Evangelho. Como veremos na descrição da comunidade, esta passava por crises. Como o Evangelho foi escrito como um revitalizador para a comunidade, o Evangelho de Marcos deve ter sido escrito nessa crise, descrita mais adiante.

            E mais: Marcos foi o primeiro dos Evangelhos. Podemos ver isso na questão de Marcos não contar sobre a infância de Jesus. Quanto mais perto do tempo que Ele existiu, mais fácil de as pessoas acreditarem que Ele realmente nasceu como qualquer outro (não apareceu simplesmente) - humano, sendo concebido por obra do Espírito Santo - divino.
  
3. A Comunidade:

            Como já dissemos, por mais que Marcos tenha sido o redator final do Evangelho, existia uma comunidade por traz que recebeu o livro e para a qual, e em função da qual, ele foi escrito. A comunidade ‘marcana’ vivia momentos de crise, com o incêndio de Roma e a acusação de que os cristãos teriam praticado tal ato; o martírio dos grandes pregadores, como Pedro e Paulo. Podemos ver isso no relato do capítulo 13 que trata de um pequeno Apocalipse: por mais que existam problemas, a solução é Cristo e a Sua volta (vs. 24-27). A chegada do reino de Deus está prometida para logo (9.1). Disso podemos dizer que os problemas pelos quais a comunidade passava eram muitos e existia-se a necessidade de se lembrar que Cristo estava junto e que um dia (com a chegada do Reino de Deus - justiça, paz, amor), o sofrimento acabaria.

            A explicação de costumes judaicos nos remetem a entender que estavam em
ambiente pagão. Judeus, por mais que fossem convertidos, conheciam esses costumes. Por isso, podemos dizer que eram gentios. E, como pode se tratar de um testemunho de Pedro, podemos levar em conta que este se ocupou também com gentios em seu ministério. Como ele (Marcos) acabou tendo uma grande experiência missionária (depois do imprevisto, isto é, seu retorno na viagem com Barnabé e Paulo). Na Primeira Carta de Pedro, ele estava em Roma (1 Pe 5.13) e com Paulo quando de uma de suas prisões (Cl 4.10).

 4. Aspectos Literários:

            Marcos utiliza muito o anacoluto, isto é, ele começa um texto, no meio deste conta outra narrativa, e volta ao texto original. São exemplos:

     5.21-24 - cura da filha de Jairo; 5.25-34 - a cura de mulher com fluxo de sangue; 5.35-43 - cura da filha de Jairo;

     11.12-14 - a figueira infrutífera; 11.15-19 - a purificação do templo; 11.20-26 - a figueira infrutífera.

            Além disso, usa com muita freqüência palavras que servem de ligação entre fatos, como por exemplo, 'e logo', 'de novo'. Sem contar que as mesmas palavras podem ter significados diferentes, dependendo do contexto. Isso quer dizer que Marcos não se preocupou com variedade. E, como o texto foi escrito em grego (e entendemos, para uma comunidade gentílica, longe do judaísmo e, até da língua original de Jesus - o aramaico), aparecem muitas explicações de palavras que recordam o aramaico, como vemos em 5.41 e em 15.34.

 5. Aspectos Teológicos:

            O texto do Evangelho de Marcos está disposto em um formato com uma tendência teológica. Jesus começa seu ministério na Galiléia (1.14 - 5.43), uma região pobre, com muitos necessitados. O sentido da Galiléia para Marcos é mais forte do que para os outros evangelistas. Como a comunidade vivia uma época de crise, os cristãos (os seguidores de Cristo) sentiam-se (e o eram) desprezados, pois eram perseguidos por muitas coisas, e citamos como exemplos: por serem seguidores de Cristo e, com isso, iam contra as coisas erradas que o império propunha (como o culto ao imperador, que devia ser venerado como um deus); também pela questão do incêndio de Roma, onde a culpa caiu sobre os cristãos. Com isso, a Galiléia, que era uma região pobre e, por isso, desprezada, sendo importante para Marcos: era preciso mostrar que o Mestre também se identificava com essa região pobre, conseqüentemente, com quem era desprezado. Jesus morre em Jerusalém. Passa o Evangelho todo de Marcos em sua viagem para lá e, estando lá, é desprezado pela elite que lá habitava e é morto. Quando ressuscita, não volta a Jerusalém: aparece na Galiléia (16.7). É aí que acontecem os eventos mais importantes.   

            Na primeira parte do Evangelho Jesus ao realizar uma cura, adverte ao curado que permanecesse calado. Esse é o segredo messiânico. Era preciso realizar algo antes de ser admitido como Messias. No texto do capítulo 8. 27-30, acontece a revelação do segredo messiânico (v. 29, principalmente). A partir daí, se revela que tipo de Messias Jesus é: aquele que perdoa pecados e dá sua vida em favor daqueles que O aceitam. É bem verdade que a elite (Jerusalém) é quem mata Jesus. Por isso, Ele é o Messias dos que são marginalizados.

            Para encerrar essa parte de aspectos teológicos de Marcos, lembramos que o evangelista faz uso demasiado do número três nos acontecimentos, além de comentarmos que é estranho Jesus ir só a Jerusalém para morrer. Quanto ao número três, destacamos:

                        - três lugares diferentes de pregação: Galíléia, dentro e fora da Galiléia e em Jerusalém;

                        - três mulheres vão ao sepulcro no primeiro dia da semana (16.1); em Mateus são duas (28.1) e Lucas não especifica ("elas", 24.1);

                        - Jesus leva com Ele ao Getsêmani três discipulos (14.33);

                        - Pedro negaria Jesus por três vezes (14.30) e o faz (14.66-72);

            Para os cristãos o número três significa a Trindade. Mas a comunidade não tinha esse conceito ainda bem definido. A presença desse número pode representar o prenúncio de um pensamento sobre a Trindade, mas nada definido. E a ida para Jerusalém não deve ter se dado só para a morte. Jesus era judeu e todos os anos aconteciam festas nessa cidade. Marcos mostra uma Jerusalém (elite) que oprime e mata. Por isso, Jesus só vai para lá para encontrar-se com a morte.           
  
O Contexto Menor
  
            O nosso texto encontra-se em Mc 1.40-45. Qual é o seu contexto menor? Para determinarmos o contexto menor, precisamos ter uma visão total do livro, tomando como base os dados da nossa primeira parte e de um esboço do mesmo (do livro de Marcos). Com isso, passamos a propor um esboço, com base no esboço de KÜMMEL (Werner G. KÜMMEL. Introdução ao Novo Testamento, Editora Paulus, São Paulo, 1982, pp. 95 a 97.) e observações pessoais:

                        Introdução: 1.1-13
                        Primeira Parte: Jesus na Galiléia - 1.14 a 5.43
                        Segunda Parte: Jesus dentro e fora da Galiléia - 6.1 a 9.50
                        Terceira Parte: Jesus a caminho e em Jerusalém - 10.1 a 13.37
                        Quarta Parte: A paixão e ressurreição de Jesus - 14.1 a 16.8
                        Conclusão: 16.9-20

            Merece ressalva a conclusão: o texto do capítulo 16.9-20 pode ser um acréscimo posterior. Vejamos o versículo 7 desse capítulo. Ele fala que Jesus ressuscitou. O versículo 9 retoma a questão da ressurreição. Seria estranho terminar o Evangelho com o versículo 8, que fala de medo que, aliás, era a situação da comunidade, por perseguição e por falsa acusação de incendiar Roma. Por isso, se acrescentou posteriormente (acreditamos assim) à redação essa conclusão.
   
            Dito isso, voltemos ao esboço proposto. Podemos situar o nosso texto na primeira parte, isto é, na Atividade de Jesus na Galiléia. É aí que o Senhor chama os seus discípulos, cura um endemoniado, a sogra de Pedro, além de outros. Quando Ele se retira para orar, acaba encontrado um leproso, a quem cura e, voltando a Cafarnaum, cura um paralítico. No ínterim dessa cura, tem uma discussão com alguns escribas. Vocaciona Levi, um cobrador de impostos (que era, por sua profissão, mal visto na sociedade) e come com pecadores. Isso acaba desencadeando alguns discursos de Jesus. Volta a realizar curas e determina quem serão os doze seguidores mais próximos. Para encerrar essa parte, Jesus passa uma série de ensinamentos em forma de parábolas, explicando o significado aos doze em particular e realiza um milagre (acalma a tempestade) e outras curas.

            Dentro dessa parte, devemos situar o contexto menor, que seria o conjunto de perícopes que aparecem antes e depois da perícope escolhida para estudo. No nosso caso, delimitamos essa perícope de Mc 1.40-45 dentro dessa primeira parte de curas, que vai do v. 21 a té o capítulo 2.17.

            Feita essa delimitação, precisamos entender o que esse texto de 40 a 45 está fazendo exatamente nesse lugar e não está em outro, isto é, qual a sua função. Observando o texto, superficialmente, ele trata de uma simples cura, como outros textos desse contexto menor. Antes de prosseguirmos, vamos descrever quais as características básicas encontradas em um relato de cura:

a)   as pessoas buscam se aproximar de Jesus, e, algumas vezes, informações sobre a pessoa que busca auxílio e a duração da doença;

b)   qual o tipo da doença e, em alguns casos, informações sobre a precariedade dos resultados em tratamento anterior;

c)   a cura e suas conseqüências;

d)   como as pessoas que observaram a cura reagiram.

            Essa seqüência para a explicação de um milagre deve-se ao fato da existência de um tempo (no caso de Marcos, por volta de 30 anos) entre o fato e a escrituração do mesmo. É provável que nem todas as curas tiveram essa seqüência de acontecimentos. Mas, para efeitos de memorização do fato ocorrido, é mais fácil criar-se uma seqüência para os fatos em comum. A transmissão oral se ocupou desse artifício. Marcos, que estava bem próximo dessa tradição, a perpetuou nos seus escritos e os outros evangelistas (Mateus e Lucas, principalmente), que o utilizaram como fonte, fizeram essa seqüência permanecer. Vejamos o que se encaixa no nosso texto principal:

·      o leproso se aproximou de Jesus (v. 40);
·      o tipo de doença era lepra (v. 40);
·      a cura acontece quando Jesus o toca e a conseqüência é a necessidade de apresentar-se ao sacerdote e oferecer o que a Lei mandava (vs. 41-44);
·      como o leproso ao ser curado não cumpre o pedido de Jesus de não dizer nada a ninguém, as pessoas ficaram sabendo e Jesus tornou-se muito procurado (v. 45).

            Mas essa cura não é uma cura tão simples. Não era o fato simples de se expelir um demônio ou curar uma febre. "O gesto coloca em evidência um leproso que a Lei excluía da vida social" (GORGULHO & ANDERSON. A Justiça dos Pobres, Coleção Círculos Bíblicos nº 4, Edições Paulinas, São Paulo, 1981, p. 87). O leproso na cultura judaica, de acordo com a Lei, era desprezado, marginalizado. Não podia viver na cidade, mas sim nos lugares afastados, desertos. Eram alimentados por pessoas que deixavam a comida na beira do caminho, que sabiam que naquele lugar viviam leprosos. Vemos o dilema dos leprosos que já não tinham o que comer (pois a cidade também passava por uma dificuldade - estava sitiada e não entrava nada lá) e, cientes que poderiam morrer de qualquer forma, preferem visitar o acampamento do inimigo do que pedir comida em sua cidade (2 Rs 7.4). A penalidade era rígida. E mais: se um leproso viesse pelo caminho e uma pessoa sã também, no outro sentido, o leproso deveria avisar de sua situação de "sub-gente".

            O nosso contexto menor segue até ao 2.17. A partir do versículo 13, Jesus volta a mostrar Seu interesse pelos marginalizados. Ele escolhe um cobrador de impostos para segui-lO. Este, era visto como um pecador que roubava e oprimia o povo. Era marginalizado, estava à margem da sociedade, como o leproso, só que em outra condição. Dos versículos 15 a 17, Jesus está comendo com pecadores, isto é, marginalizados, e os escribas vendo isso, recriminaram Jesus, que é judeu. Diante disso, Jesus faz Sua escolha: veio para os marginalizados. O Filho de Deus (Mc 1.1) veio ao encontro dos necessitados, dos que precisavam de ajuda (v. 17) e que a religião judaica, tão ocupada com seu legalismo, não auxiliava.

            Diante dessas observações, podemos concluir que o nosso texto está nessa parte do Evangelho para introduzir a escolha de Jesus pelos marginalizados. Se diretamente aparecesse a questão d'Ele comer com os pecadores, não existiria respaldo para a confirmação dessa escolha. A cura de uma marginalizado mostra o início do interesse de Jesus por pessoas que necessitavam desse apoio.
  
Delimitação da Perícope e sua Escrituração: 

            Passamos agora a observar o texto de Mc 1.40-45 com maior atenção. Para que o entedimento seja completo, é possivel que em alguns momentos estejamos olhando para as perícopes imediatamente anterior e posterior ao texto

            Vemos no v. 40 que o leproso se aproximou de Jesus. Como eram considerados impuros, eles deveriam viver aos arredores das cidades, em lugares desertos, à margem do caminho. Isso quer dizer que para o leproso encontrar e se aproximar de Jesus, existia a necessidade d'Ele estar em um lugar afastado, e não em um "grande" ("GRANDE"observando-se as possibilidades da época.) centro. E, na perícope anterior, de 35 a 39, Jesus havia se retirado para um lugar deseto para orar. O v. 38 já relata o desejo de Jesus voltar para a cidade com a intensão de levar a mensagem. No v. 40, o leproso se aproximou de Jesus. Com isso, entendemos que o v. 39, que explica a volta de Jesus para a Galiléia e o que Ele fez, poderia ter entrado no texto posteriormente.

            Vamos observar o que aconteceu no decorrer do Evangelho depois da cura do leproso. Jesus entrou em Cafarnaum e realizou o que o v. 39 relata: pregou a Boa Nova, expulsou demônios e efetuou curas. Podemos entender que Jesus passou alguns dias (2.1) fora da cidade, após a cura do leproso. Ele teria se encontrado com o leproso quando se retirou para orar, no caminho de volta. Como para efetuar a cura Ele tocou no leproso, pela Lei tornou-se impuro (Lv 13 e 14), e permaneceu em lugares afastados até que, passados alguns dias, se comprovou que Ele não estava com lepra e, então, entrou na cidade, passando pela Galiléia, "pregando nas sinagogas deles e expelindo os demônios" (v. 39).

            Com isso, dizemos que a entrada na Galiléia do v. 39 só aconteceu dias depois da cura do leproso, que Jesus teria encontrado ainda em lugares desertos, no retorno do seu "retiro" para oração. Então, o v. 39 deveria estar originalmente depois do v. 45.

            Como Marcos foi o primeiro Evangelho a ser regidigido, suas fontes são quase todas orais. Por esse motivo, como já explicamos, era necessário uma seqüência lógica para que as pessoas não se esquecessem dessa tradição. Como o v. 38 já fala do desejo de Jesus retornar para outros lugares, seria mais fácil de se lembrar do Seu retorno com o comentário do que Ele já fez no seu retorno. Marcos deve ter perpetuado essa tradição, sem observar que o encontro com o leproso teria se dado nesse retorno. E nesse texto dos vs. 35 a 39, aparece mais uma alusão à possibilidade de Marcos ter escrito seu Evangelho com o testemunho de Pedro: ele (Marcos) fala de Pedro e dos outros seguidores, só citando o nome de Pedro (Simão, v. 36).

            Propomos, entretanto, que a perícope de Mc 1.40-45, delimitada na Bíblia do ALMEIDA, Revista e Atualizada, 2ª edição, 1993, deveria ser dividida desde o v. 35 até o 45, sendo que o v. 39 fosse o último dessa seqüência, dessa perícope. 

O Leproso nos Nossos Dias

            Jesus fez sua opção: veio para os que estavam "doentes" (Mc 2.17), para aqueles que eram desprezados na Lei, os marginalizados. O leproso era um. Como seguidores de Jesus, devemos observá-lO, tê-lO como nosso exemplo, e praticar o que Ele ensinou. Devemos estar ao lado dos que são desprezados socialmente. Como temos agido? Temos feito isso? Muitas vezes, seguir a Jesus nos incomoda. Principalmente nessa parte: auxiliar o marginalizado, o desprezado socialmente. É mais fácil e cômodo permanecer do lado dos poderosos . E quantas vezes nos pegamos não auxiliando um necessitado e dando apoio aos poderosos.

            Nos preocupamos demasiadamente com o ser puro, não praticar nenhum erro. Acabamos esquecendo de ser justos, não ajudando a quem realmente necessita. Sabemos que pela situação econômica, onde muitos têm poucos recursos e poucos acabam detendo a maior parte do capital, muitos dos que querem (ou dizem querer) ajudar, não podem. Devemos tomar consciência de que se repartirmos, mesmo o pouco que temos, muitos serão ajudados. Na multiplicação dos pães (Mc 6.30-44), só havia 5 pães e 2 peixes e cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças, se fartaram e sobraram 12 cestos cheios. Se cada um que só pode ajudar com pouco (ou melhor, com muito pouco) se colocar a realizar esse trabalho, muitos serão ajudados. A cura irá acontecer. Talvez não a cura de uma lepra, mas a cura da reintegração social, como também aconteceu com o leproso (v. 44)

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