Conferencista Edimilson Garcia

sexta-feira, 27 de maio de 2011

MORDOMIA CRISTÃ

                                                 MORDOMIA CRISTÃ                                         

No princípio de todas as coisas, Deus criou o ser humano e colocou-o no Jardim do Éden com uma função: “Cuidar e cultivar o jardim” (Gn 2.17). Deus deu uma função muito especial ao ser humano, a de cuidar de sua criação. A de ser mordomo de Deus. O que significa mordomia? Qual é o seu sentido prático para nossas vidas?
    O termo mordomia tem sido utilizado em nossos dias de maneira diferente ao sentido original dessa palavra, sentido este que é o do texto Bíblico. Muitas vezes, quando alguém está oscioso, sem ter o que fazer, muitos dizem: “Que mordomia, hein?!” Entretanto, quando voltamos ao grego, língua em que foi escrito o Novo Testamento, descobrimos que a palavra que dá origem a mordomia vem da junção das palavras: oikos = casa; e nomos = lei (oikonomos – Lc 12.42). A palavra era utilizada para designar a gerência, a responsabilidade que alguém tinha sobre determinadas posses, aliás, a função de um mordomo numa residência. Este é o propósito de Deus para o ser humano, fazer dele o mordomo de sua criação, esta é a nossa responsabilidade e o nosso dever.
Oikonomos
    A palavra aparece em Lucas 12.42, 16.1-9, Mateus 20.8, com o sentido ampliado. Ela não se refere estritamente a bens materiais, mas ao cuidado que cada pessoa deve ter com sua vida diante de Deus. Paulo usa a mesma palavra para definir sua comissão como pregador do Evangelho (1 Co 9.17); ele vê-se como mordomo, despenseiro da graça de Deus (Ef 3.2).
    Outra idéia introduzida e ampliada no NT, é a de associação: substituição dos termos servos e senhor, para amigos que trabalham juntos na realização de um projeto: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer” (Jo 15.15). Paulo acrescenta que somos cooperadores de Deus (1 Co 3.9). Mordomia então, passa a ser uma responsabilidade que um grupo comum leva sobre si: “... é uma atitude em família. Não se trata meramente de trabalhar para Deus na qualidade de seus agentes e administradores, mas trata-se de cooperar juntamente e com Ele, na qualidade de filhos, compartilhando de Seus propósitos, de Seus recursos e de Sua própria natureza” ( KANTONEN, T.A. A Teologia da Mordomia Cristã.
Direitos e Deveres do Mordomo
Como mordomos, ou despenseiros da graça de Deus, temos a oportunidade de sermos participantes diretos desta graça. O mordomo tem o privilégio de estar intimamente ligado com os interesses de seu senhor. Jesus ampliou esta intimidade mencionando que não nos chama mais de servos, mas de amigos. Isto nos coloca numa posição privilegiada diante de Deus. Mas, como amigos e despenseiros da graça de Deus, temos o dever de fazermos tudo em prol Daquele que é o nosso amigo e Senhor. Temos a responsabilidade de cuidarmos o melhor possível de Seus bens, pois, hoje somos mordomos de Deus neste mundo, amanhã, seremos herdeiros em Cristo Jesus. Portanto, quanto melhor cuidarmos do que Deus nos deu, melhor participaremos de Suas promessas.
    O mordomo que anda segundo a vontade de seu Senhor goza de privilégios. No nosso texto base, ele é chamado de mordomo Bom e Fiel, e tem a oportunidade de participar do banquete e do gozo do seu Senhor. Os que são infiéis, isto é, utilizam-se do que o Senhor lhes deu de forma errada, são lançados para fora de Sua presença.
Cuidados e Compromissos com a Obra de Deus
    Por sermos despenseiros de Deus, temos o compromisso de zelarmos pela obra de Deus. Este zelo manifesta-se pelo nosso testemunho de vida e pelos cuidados que temos com a obra e a casa do Senhor. Isso implica em tomar cuidado com a utilização do nosso tempo (Há tempo para todas as coisas), conseguindo utilizá-lo adequadamente. Mordomia é usar o tempo adequadamente para o desenvolvimento de atividades na igreja, trabalho, família, lazer...
    Assim, ser mordomo é cuidar de todas as coisas de maneira correta. Muitos, apenas restrigem isso à prática do dízimo. Não concordo que seja apenas isso. Entendo, como escrevi, que ser mordomo é saber usar bem todas as coisas e cuidar da maneira correta.
    Como a prática do dízimo é muito incentivada como principal ponto da mordomia, quero também escrever sobre ela. Essa prática é uma tradição judaica, herdada pelo cristianismo e serve para manutenção do Templo. É uma tradição na qual cada pessoa entrega as primícias de sua produção para Deus. Para o profeta Malaquias, deixar de entregar o dízimo significava infidelidade a Deus e à Sua obra. Por outro lado, entregá-lo, tem como conseqüência vida farta e abundante, pois é promessa de Deus, que dá ao povo liberdade de prová-lO nisto: “... e provai-me nisto, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu e não derramar sobre vós benção sem medida” (Ml 3.10).
    Muitos líderes religiosos usam deste texto para defenderem a idéia de que quanto mais se é fiel nesta prática, acrescentado-se a ela boas ofertas, maiores serão as bênçãos. Parece que se estabelece uma espécie de barganha com Deus. “Eu paguei o dízimo, então eu posso pedir a benção”. Isso não é coerente com os ensinamentos do Novo Testamento. Não podemos comprar a Deus. No Novo Testamento, Cristo não condena a prática do dízimo, mas afirma que o mesmo não tem valor, se não for acompanhado de uma vida comprometida com a Nova do Reino (Mt 23.23). Dízimo não é pagamento, é oferta de vida e gratidão. Ele não pertence a nós, mas a Deus.
    A relação do dízimo com o cristianismo se dá como uma resposta de amor ao Deus que tudo nos dá. Zaqueu, o publicano, além de devolver quatro vezes mais o que havia roubado, dá metade do seus bens aos pobres como gratidão pelo amor de Jesus que sentia naquele dia (Lc 19.1-10). Os primeiros cristãos vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, de acordo com a necessidade de cada um (At 2.45). Ninguém era obrigado a fazer nada, faziam porque a graça de Cristo os impelia a isto.
    Entregar o dízimo é apenas uma pequena parte da mordomia cristã. Mordomia, é usar tudo o que temos de forma prudente, de forma que agrade a Deus. Não se restringindo a 10%, mas entregando aquilo que o amor e a graça de Deus nos impulsiona. Do ponto de vista do evangelho, a própria pergunta “Quanto devo dar?” indica uma falta de maturidade espiritual assinalada por cálculos legalistas, em lugar de espontaneidade de fé que opera através do amor.
    O cristão é chamado a viver em amor, inclusive no que diz respeito aos dízimos. Num mundo capitalista, onde não se coloca dinheiro onde não há possibilidades de lucros, somos chamados a dar sem esperar nada em troca, por graditão. Não se trata de uma conta que devemos a Deus, nem mensalidade, mas fruto de uma vida transformada, que experimentou a graça de Jesus, e tem alegria e satisfação de contribuir na continuidade da obra de Cristo.

Forte abraço.
Em Cristo,

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