Conferencista Edimilson Garcia

sexta-feira, 27 de maio de 2011

SÁBADO- SHABBAT


                                                             SÁBADO- SHABBAT

O texto:
    Encontramos a questão do Sábado no Decálogo, nos livros de Êxodo e Deuteronômio. Este era um dia de descanso, o Dia do Sábado, sendo que este vem a ser o mandamento mais extenso e com muitas explicações e acréscimos, o que nos faz observar a sua importância para aquele povo. Vamos observar isso na comparação sinótica abaixo entre Êxodo 20.8 - 11 e Deuteronômio 5.12-15:
DEUTERONÔMIO
ÊXODO
12 Guarda o dia do sábado, para o santificar, como te ordenou o senhor teu Deus;
8 Lembra-te do dia do sábado, para o santificar.
13 seis dias trabalharás, e farás todo o teu trabalho;
9 Seis dias trabalharás, e farás todo o teu trabalho;
14 mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; nesse dia não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu boi, nem o teu jumento, nem animal algum teu, nem o estrangeiro que está dentro das tuas portas; para que o teu servo e a tua serva descansem assim como tu.
10 mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus. Nesse dia não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o estrangeiro que está dentro das tuas portas.

11 Porque em seis dias fez o Senhor o céu e a terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descansou; por isso o Senhor abençoou o dia do sábado, e o santificou.
15 Lembra-te de que foste servo na terra do Egito, e que o Senhor teu Deus te tirou dali com mão forte e braço estendido; pelo que o Senhor teu Deus te ordenou que guardasses o dia do sábado.

Este mandamento deveria ser motivo de bênção para o povo, mas infelizmente, no tempo de Jesus principalmente, transformou-se numa carga onde, na realidade poucos/as poderiam observar, se é que poderiam (Ver: Mc 2.23-27; Mc 3.1-5; Lc 13.15-16; Lc 14.5). Por isso, Jesus entra em confronto com os fariseus, que não observavam corretamente a lei.
O que é: A lembrança
    O Shabbat é o sétimo dia no calendário israelita e judaico. A palavra shabbat pode significar interrupção, suspensão dos trabalhos. Hoje a palavra shabbat é usada em Israel, quando falam em greve: “Quando há o objetivo de reivindicar melhores condições de trabalho, a paralisação chama-se greve; e é interessante notar que uma das palavras hebraicas usadas hoje em Israel para dizer greve é, também, shabbat.” ( V.V.A.A. Os Dez Mandamentos: Várias leituras, Estudos Bíblicos nº 09, Petropólis,Vozes,1986, p.08).
    A lembrança de ter um dia para descansar é um costume muito antigo em Israel. Falam dele antes do exílio, como podemos ver no texto que segue:
Ë um costume muito antigo em Israel. Já se fala nisto antes mesmo do exílio (por volta do ano 600 a.C.); cf. 2 Rs 4.23; 11.5; Am. 8.5;. Nada sabemos sobre culto ou celebrações religiosas nesse dia. É possível até que existisse como conseqüência do repouso. Os profetas não insistem no sábado. A insistência começa um pouco antes do exílio; Jr 17.21; Ez. 20.12…” ( Idem.p.16).
    Mas, ainda quanto à lembrança, podemos dizer que
O termo hebráico Shabbat aparece como substantivo somente na linguagem religiosa e designa o 7º dia da semana; (...) Shabbat deve ser considerado como denominativo do verbo Shabat, cujo significado básico é independente do Sábado, e significa, de modo muito geral, 'cessar, ficar parado' (Gn 8.22; Is 24.8), etimologia esta que o próprio texto bíblico apresenta (Gn 2.2) (BAUER, J. B. Dicionário de Teologia Bíblica, Vol. II, São Paulo, Edições Loyola, 1973, p. 1003).
MACKENZIE diz em seu dicionário bíblico que a palavra Shabbat parece estar ligada a uma palavra do acádio (sapattu), que é mencionada em textos rituais. Esse dia era considerado como de "Mau agouro", no qual era perigoso empreender atividades (MACKENZIE, J.R. Dicionário Bíblico, São Paulo, Edições Paulinas, 1973, p. 809. Também encontramos isso em BAUER, J.B. Op. Cit.). Mas o Sapattu também é visto como um dia muito bom, designando a festa do dia que marca a metade do mês ou o dia da lua cheia (VVAA. Dicionário de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo, Edições Vida Nova, 1998, p. 1521).
Percebemos que o caráter humanitário tem mais força no texto de Deuteronômio, pois lembra que assim como eles foram escravos no Egito, estando sob o jugo de Faraó, que eles deveriam ser complacentes com aqueles/as que estão debaixo de seu senhorio, tanto familiares, escravos e animais, e a cada sete anos deveriam deixar descansar o próprio campo de plantio, conforme os preceitos do ano sabático, que encontramos em Ex 21.2-6; 23.10-11. O surgimento desse ano sabático "deve ser procurado no desejo de frear o desenvolvimento do pauperismo e da escravidão por causa das dívidas" ( MONLOUBOU & BUIT. Dicionário Bíblico Universal, Aparecida/Petrópolis, Santuário/Vozes, 1997, p. 699).
Sábado. Um dia de descanso, para lembrar do jugo em que um dia o povo esteve. Com isso, podemos observar que Israel deve ter na sua lembrança que, da mesma forma como Javé agiu no passado, libertando, o sábado deve ser "agente libertador, pondo em liberdade aqueles que na sociedade sofrem algum tipo de jugo" ( VVAA. Dicionário Internacional de Teologia: Antigo Testamento, São Paulo, Edições Vida Nova, 1998, p. 1522). Daí podemos tirar que Shabbat pode significar interrupção, suspensão de trabalhos. Libertação e complacência, não rigidez.
Origem:
Já dissemos algo dessa origem quando citamos o dicionário de MACKENZIE. "Etimologicamente, a explicação mais provável continua sendo, segundo parece, que é derivada do verbo sabat., 'cessar', 'fazer pausa'. Esta explicação está submetida em Gn 2.2-3." (BROWN, C. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, Vol. IV, São Paulo, Edições Vida Nova, 1983, p. 265). Daí vem a tradição de não fazer nada de Sábado. Mas será que essa era a intenção última: não fazer nada no sábado? Isso nós vamos ver mais adiante.
Diante desse quadro, nós temos várias possibilidades de origem para o Sábado, tendo como ponto de partida, para o povo judeu, a lei de Moisés. Se por influência de povos vizinhos, se religiosa, levando-se em conta a escravidão... o que sabemos é que essa prática se torna muito forte entre os judeus, causando até exageros, que chegaram ao tempo de Jesus, em nome de uma religiosidade.

Jesus e o Sábado – Confronto com os fariseus:

Com o passar do tempo, o Sábado não continuou sendo um mero dia para descanso e para dar descanso. Começou-se a exigir uma precisão extremamente rigorosa frente a observância do Sábado. Não se preocupava em parar um dia e deixar de trabalhar: era uma observação exagerada. Não poderia levar o boi para beber água (Lc 13.15) ou tirá-lo de um poço se lá caísse (Lc 14.5), não poderia libertar alguém de Satanás (13.16), não poderia colher para comer, mesmo com fome (Mc 2.23-26), nem mesmo propiciar a cura a alguém (Mc 3.1-5).
O Sábado, que era para o bem estar do ser humano (Mc 2.27-28), torna-se algo enfadonho para ser cumprido. Jesus entra em cena, vindo contra os doutores da lei, mas não indo contra a observação do Sábado: vai contra as interpretações que trazem enfado ao ser humano. "Jesus anuncia que na sua pessoa chegou o tempo da liberdade frente a regra sabática" (MONLOUBOU &.BUIT. Dicionário Bíblico Universal, Aparecida/São Paulo, Santuário/Vozes, 1997, p. 699). Mesmo com liberdade, a regra sabática permanece, sendo um tempo para descanso, não com necessidades pré-estabelecidas, para limitar o ser humano, causando-lhe encargo. Todos/as nós precisamos de um tempo para “nos desligar” das coisas e situações ao nosso redor e praticar um pouco o descanso, mesmo que com recreações.
Jesus se opõe aos doutores da lei que, em vez de deixarem o Sábado ser algo sadio, escravizavam as pessoas em sua observação. Assim, nós voltamos à questão que "o Sábado recorda o fato de os israelitas terem sido libertos do Egito, de igual forma deve tornar-se um agente libertador, pondo em liberdade aqueles que na sociedade sofrem algum tipo de jugo" ( V.V.A.A. Dicionário Internacional de Teologia do AT., São Paulo, Edições Vida Nova, 1998, p. 1522).
Disso podemos tirar que mais que uma regra, o Sábado é também um sinal (como a circuncisão ou o arco-íris). A guarda do Sábado mostra que Israel confia em Javé, tanto que se dedica a um tempo de descanso, lembrando de Seus atos salvíficos, e tendo atitude igual para com os/as que os/as rodeiam.
Sábado no pré-exílio e no exílio – trabalho de sol à sol:
A Lei que envolve o Sábado nos mostra algo de pré-exílica: a lembrança do Egito. Isso mostra um indício de uma aproximação com a época mosaica (Cf. CHADY, T. C. Os Dez Mandamentos: Os alicerces da nova sociedade, Petrópolis, Editora Vozes, 1988, pp. 29 e 30). Javé ouve dos céus o clamor do povo que está passando por maus momentos de opressão no Egito. É daí que Javé levanta Moisés para falar com Faraó e libertar o povo do Egito.
O clamor do povo era claro: libertação do trabalho de sol à sol. Não era mais suportável essa situação. E quando Javé livra, dá ao povo uma série de preceitos que devem ser observados. Dentre esses está o shabbat que, como já dissemos (p. 05), é um dos mandamentos mais explicados no Decálogo. E uma das explicações faz alusão ao tempo em que o povo foi escravo no Egito. Deve descansar no dia de sábado tendo na lembrança que um dia não podia descansar. Isso nos faz notar a grandeza e amplitude desse mandamento, uma vez que, se era para descansar lembrando que um dia não pode descansar, então o sábado tem a dimensão da libertação. Com isso, insistimos que o sábado não era para carga sobre o povo, mas para a lembrança da liberdade e para se dar continuidade nessa liberdade, uma vez que o shabbat não era exclusivo para quem era judeu, e sim para toda e qualquer pessoa que estivesse com os judeus. Era para a liberdade e não para a carga e escravidão.
Mas a força maior é no exílio. Na Babilônia, eles "podia se movimentar livremente, mas eram obrigados a executar determinados serviços por ordem dos babilônicos" ( METZGER, M. História de Israel, São Leopoldo, Editora Sinodal, 1991, p. 14). Disso podemos tirar a importância da observação do sábado no exílio. Pensamos que a maior contribuição deste costume e de outros foi manter o povo unido e lembrá-los que eram israelitas e que suas vidas pertenciam a Javé.
    Os dirigentes do povo observaram que ele (o povo), para manter a unidade e a lealdade a Javé, necessitava observar costumes da terra natal. Então transformaram esses costumes em lei, e esse foi o caso do sábado e da circuncisão. “No exílio e depois dele, perdida a terra e o templo, a circuncisão e a observância do sábado, tornaram-se os sinais de que pertencia a Javé” ( Idem.p.17). Nos parece que o costume começa a caminhar por uma estrada para deixar de ser um benefício, uma benção para transformar-se em um jugo.
    Metzger faz uma afirmação muito interessante do período exílico: Para aquele povo que estava no exílio oferecer um culto legitimo era impossível, pois estavam longe de Jerusalém e do Templo, então observar os elementos que não estavam diretamente ligados ao culto torna-se muito importante. Esses elementos eram o Sábado e a Circuncisão, já praticados na época pré-exilíca, mas que agora tornaram-se sinais da fé em Javé, ou seja em Sinais de Aliança.
SÁBADO NO PÓS-EXÍLIO:
    Quando a Neemias foi permitido retornar a Judá, ele teve a necessidade de resgatar antigos costumes que foram perdidos, e um deles foi o de resgatar a prática da observância do sábado, como podemos observar em Neemias 13.15ss.
    Mckenzie diz que o judaísmo tornou o sábado como uma das principais leis a ser observada, e ainda que a observância do sábado “Desenvolveu-se paralelamente com a religião da sinagoga, não estava ligado ao templo e podia ser observado em qualquer lugar.” ( MCKENZIE,J.L. Dicionário Bíblico, São Paulo, Edições Paulinas,1983.p.810). É interessante notar que a observação do sábado, acabou por tornar-se uma marca dos judeus, algo que os identificava distinguindo-os dos gentios.
    Como dissemos anteriormente, durante o período do exílio, com a finalidade de manter a unidade do povo e demonstrar sua fidelidade a Javé, o costume da observância do sábado acabou por tornar-se lei.
    No tempo de Jesus esta lei e outras começam a deixar de ser uma benção, um benefício; um dia que todos poderiam recuperar suas forças para o trabalho semanal, para tornar-se uma carga.
    Parece que os que detinham o poder religioso esqueceram que seus pais foram escravos no Egito; e acabaram providenciando outro tipo de opressão para impingir ao povo. Então o sábado deixa de ser um “espaço que Deus dá para renovação e uma vida melhor” (CRUZ DE MALTA, Os Dez Mandamentos, v.1, São Bernardo do Campo, Imprensa Metodista,1988, p.21).
    Cumprir a lei da observância do sábado no tempo de Jesus acabou por tornar-se algo insuportável, chegando-se ao ponto que a prática do bem foi proibido, lembremos que Jesus foi acusado de não pertencer a Deus por curar no sábado (Jo 9.16), mas Jesus recordou que Davi comeu o pão da proposição, os quais não eram lícitos comer (Mt 12.4), mas somente ao sacerdote, e este por oferecer sacrifico no templo também acabava trabalhando. Isso mostra que, mesmo que o judeu quisesse, era quase impossível fugir de fazer algo no sábado. Nem mesmo o grande rei Davi conseguiu! E Jesus quer mostrar que o problema não está no fazer ou deixar de fazer algo no sábado, mas na lembrança da libertação e na necessidade de continuar-se a praticar essa liberdade. MAckenzie afirma que Jesus
Foi particularmente severo quando os fariseus o criticaram por curar em dia de sábado, observando que não existe tempo que é proibido fazer o bem aos outros; o homem tem pelo menos tanto direito a assistência quanto o animal que se desgarra e cai num buraco, de onde o seu proprietário ou qualquer pessoa pode salvá-lo no sábado
    Apesar de todo o jugo imposto pelos escribas e fariseus, Jesus fez uma afirmação muito importante: “O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado. Pelo que o Filho do homem até do sábado é Senhor” (Mc 2.27-28). Ou seja, o sábado foi feito para o benefício do ser humano e não para servir de mais um peso na vida humana.
CONCLUSÃO
    Diante da pesquisa feita, percebemos que o Dia do Sábado foi criado para o benefício do ser humano, sendo ele necessário para descanso e um tempo hábil para recuperar-se as forças que foram dispensadas no trabalho semanal. Além do mais o sábado era também para o povo dedicar-se ao culto e adoração a Deus e uma oportunidade sem igual para ficar mais próximos da família, uma vez que, depois de legitimado pelo Templo, o dia do Sábado passa a ter caráter religioso, para a participação nas programações no próprio Templo. Sem contar com a dimensão libertadora desse dia.
    O dia de descanso em nossos dias parece que está perdendo sua importância. Trabalha-se muito sem parar, alcançar a produtividade é o que mais importa, fala-se até em “trabalho da igreja”. Parece que nos nossos dias, estamos quase voltando aos tempos de Jesus, onde não se tinha um dia para descanso e sim um dia para servir de carga, com leis específicas (hoje, necessidades específicas), e não com a dimensão de lembrar que um tempo antes não se podia descansar, mas agora se pode.
    O ser humano da atualidade parece não dar valor em estar perto da família, conversando com a esposa, brincando com os filhos/as. Não percebe a importância de, pelo menos uma vez por semana, estar em contato com o criador.
    Nós cristão/as precisamos perceber a importância de se ter um dia assim, dedicado para Deus e para o próximo e para si mesmo. Precisamos ter em mente qual a proposta do Criador com o dia do descanso. Não podemos nos limitar a um ativismo e nem a um momento de descanso apenas por se ter. É necessária a dimensão libertadora do sábado ser levada em conta para que a integralidade do ser humano possa ser observada. Isso deve partir de nós, cristãos/ãs.

Forte abraço.
Em Cristo,

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