Conferencista Edimilson Garcia

terça-feira, 29 de outubro de 2013

- Comentário - Epístola Aos Gálatas




COMENTÁRIO
A Epistola Aos Galatas

CAPÍTULO V
Paráfrase: 2-12 Cristo ou circuncisão! “Qual será? Solenemente renovo minha mensagem evangélica. Ambos não! Cristo não consente em ser parte do Evangelho, apenas um dos fatores para salvar. É tudo ou nada. Qualquer posição que derdes à circuncisão, roubais a Cristo. Ele não cede terreno. Sois vós que cedereis, pondo-vos fora do caminho. Abrireis um abismo entre vós e nós, entre vós e nosso Salvador. Nele não teríeis parte. Encarcerados na Lei, teríeis de render-lhe absoluta conformidade em todos os seus 2386 mandamentos. Naturalmente seríeis uns condenados eternos, longe de Cristo e da esfera onde sua graça vos possa alcançar e salvar. É uma escolha medonha e confio e rogo que minha exortação esteja a tempo e que nenhum de vós tenha feito tão medonha decisão. Se for como eu creio, somos todos nós unidos numa salvação pela fé, não pelas obras ou ritos; num vigor moral e santo no Espírito, não no legalismo; num terreno de graça, não de contagem de mérito humano. Mesmo que haja pouco desse fermento de veneno entre vós, é demais; levedo rapidamente a massa, pelo seu fanatismo, se não for lançado fora. Confio que esta será a sentença judicial de cada igreja contra um advogado que seja do legalismo ou ritualismo. E que este incidente seja o fim da estipre! Que tal agitador fique sem descendência, sem sucessor, pois está vos seduzindo para a traição! Todo o assunto de tal fanatismo está simplesmente alheio ao Evangelho. Nem a circuncisão tem valor evangélico nem a mera atitude negativa contra a circuncisão – digo isto a qualquer um que esteja tentado a ser partidário do meu nome em oposição ao judaísmo, sem a experiência da graça que eu tenho e prego. A fé não se limita a asperezas controvérsias, mas é a força mais salutar e operosa na vida humana, pois na fé salvadora do crente reside o amor que santifica. “O amor tudo crê.” A fé em tudo ama, e é operosa na santidade por este amor. Não vacilei neste Evangelho. O caso de Timóteo não é paralelo ao vosso, nem é exemplo para vós. Estou perseguido precisamente porque em toda parte prego o que aqui declaro a vós. É o único Evangelho. Sem aceitar e gloriar-se no “escândalo” da cruz, ninguém tem parte com Cristo.
2 O quinto capítulo até v. 12 salienta e reforça este argumento. É preciso entender Gál. 5:2-4 no seu contexto, nas circunstâncias e no seu ambiente. Será, modo contrário, uma fonte de perplexidade e confusão. Como pode ser a verdade absoluta: “se vos circuncidardes, Cristo de nada vos aproveita”? Paulo mesmo era homem circuncidado a Timóteo. Pois bem. Como negar aos gálatas uma parte em Cristo se forem também circuncidados?
O motivo é que os gálatas eram gentios. A circuncisão para eles seria um ato responsável, de pessoas inteligentes e conscientes da significação de seus atos, incorporando-se ao judaísmo, tomando as obrigações nacionais da Lei levítica, e fazendo-se adeptos desse sistema. Seria repudiar ao Evangelho, a graça e a cruz, e pôr sua confiança numa cerimónia, no legalismo, e no mérito humano. Seria, portanto, um passo fatal, uma decisão anti-cristã, uma negação cabal de Cristo perante os homens. Seria colocar-se fora do terreno onde Cristo salva e abençoa.
O ato de se submeter à circuncisão haveria de revelar o estado de sua alma. “Já fostes separados de Cristo tantos quantos estais no afã de ser justificados numa esfera de lei.” Os adeptos d legalismo são todos incrédulos, embora façam parte, em alguns casos, de igrejas de Deus. Não diz que os crentes serão separados de Cristo se praticarem se praticarem a circuncisão: afirma, porém, que a disposição de confiar em uma cerimónia religiosa para salvar a alma revela uma alma perdida, miseravelmente enganada, já separada de Cristo. Quem é capaz dessa confiança em ritos prova que não é cristão. Sua confiança não foi posta em Cristo.
Uma religião constitui uma unidade. Uma mistura eclesiástica não e cristianismo. Às cerimónias, acompanham sua interpretação. Quem inteligentemente aceita a cerimónia religiosa da circuncisão se incorpora no judaísmo e torna-se devedor à Lei toda. Não cumprindo-a, portanto, está fatalmente perdido.
Seguem diversas conservações ponderadas:
a) Esta tentação é um impedimento para obedecer a verdade, v. 7. Notai que a verdade não é tão somente para debater e crer e argumentar, mas para ser obedecida.
b) Esta tentação é um desvio. v. 7. Deixam de correr bem na estrada real dos peregrinos para seguir uma vereda de curiosidade e novidade.
c) O Espírito não é autor desse movimento. Ele os chamou para Cristo. O ritualismo, porém, nunca vem do Espírito, pois é a morte da espiritualidade. v. 8.
d) É uma influência corruptora nas igrejas, um fermento mortífero, capaz de levedar muitos incautos. v. 9.
e) Paulo apela para a firmeza na primitiva fé cristã, e uma rejeição formal e decidida dos agitadores judaizantes. v. 10.
f) A novel doutrina desfaz a ofensa da cruz. A cruz é ofensiva, sim VISA SER OFENSIVA à soberba filosófica, moralista, e ritualista. v. 11. Sua ofensa é propositada.
g) Paulo faz votos para que os agitadores judaizantes façam mais do que circuncidar-se e assim não tenham mais prole para inquietar o povo simples de Cristo. v. 12.
Valor nenhum há na atitude de confiar em cerimónias. Nem a circuncisão, nem a atitude antagónica à circuncisão, tem valor para a alma gentia. É a atitude que tomamos para com Cristo que nos salva. Não há, igualmente, valor para a salvação em atitudes clericais ou anticlericais. Há muitos que se supõem crentes, por serem anti-clericais. Enganam-se redondamente. Somente uma atitude pessoal para com o Cristo vivo, que foi morto na cruz, pode nos salvar.
2 “Contra esse espírito de compromisso em resolver o problema, o apóstolo insiste em alternativas nítidas: um homem pode ser salvo pelas obras (se guardar a Lei perfeitamente); ele pode ser salvo pela fé. Ele não pode ser salvo, porém, por um ecletismo de fé e obras.” (João Gresham Machen, em “What is Faith?”, p. 193.)
2 Os pronomes neste versículo salientam que se aplica ao caso dos tentados na Galáxia, não aos judeus crentes, nem mesmo a Timóteo, ou aos muitos que foram prosélitos primeiramente ao judaísmo e mais tarde se tornaram crentes. EU continuo a dizer a VÒS, os tentados pelos judaizantes, vacilando entre o Evangelho e a Lei, entre. O Espírito e a carne, entre obras mortas e uma fé em Cristo que vivifica, a vós sofreis esse pressão medonha para repudiar o Evangelho e a graça como inadequados para a salvação: Se a vossa decisão for pela circuncisão, pela carne, pela Lei, pelas obras, então por estas optastes e somente possuireis os valores que elas outorgam. Deus não premente salvação nesta base. Repudiastes, de olhos abertos, a graça, a fé, a justiça por Cristo crucificado e ressuscitado, e a virtude santificadora do Espírito Santo que moraliza e consagra. Pois bem. Ficais sem estas bênçãos que recuastes. Cristo de nada vos aproveitará, porque não o quisestes. E se protestardes: “Sim, nós o queríamos, mas em nossos termos, ou, pelo amor da paz, o queríamos numa base de ecletismo dos termos dos judaizantes e dele também.” A resposta é: “Ele é soberano, salva nas condições por ele determinadas e anunciadas no Evangelho. Ninguém é autorizado a burlar esses termos, para agradar a propagandistas e conseguir uma paz traiçoeira, pois se cada um pode ao seu bel-prazer mudar as condições de salvação, então estamos em caos religioso. Não! Os temos são claros e inalteráveis. Tomai-os ou rejeitai-os, pois não conseguireis impressionar a Deus com uma atitude que seja considerada tanto de aceitação como de rejeição da graça. Quem a aceita, a aceita como suficiente. Quem não a aceita como suficiente, não se salva.”
3 Os motivos revelam a base de juízo. O perigo da circuncisão nesta crise entre os gálatas era o motivo que impunha o ato. O lema do judaizante, desde o princípio, foi sempre o mesmo: “Se não vos circuncidardes segundo o rito de Moisés, não podeis ser salvos”. Atos 15:1. Pois bem. Com um rito arvorado em bandeira, a aceitação do rito é juramento a essa bandeira. É sentar praça nas hostes contrárias a Cristo. é naturalizar-se cidadão num reino carnal, material, supersticioso, impotente para moralizar; por mais que gabe da lei moral e cerimonial, é um reino da morte e condenação. “Agora escolhestes. Esses é o vosso regime de vida. É um regime de lei. Pois bem. Sois obrigados a obedecer absolutamente a todos os 2386 mandamentos que se encontram na Lei e se uma só vez na vida tiverdes desobedecido a um só mandamento, já estais perdidos. A vossa lei que abraçastes como esperança. Não pode vos condenar. Nesse terreno, Cristo não opera. Não há salvação para vós nem qualquer outro benefício do Calvário quando repudiastes e rejeitastes como insuficiente, fútil e nula toda a obra redentora do Calvário.”
3 Há decisões tão radicais que automaticamente arrastam a vida nas suas conclusões legítimas. A naturalização é uma. Se envolve a aceitação de uma pátria, são era precisamente um ato de naturalização para uma nova pátria, raça e religião. Um gentio, tomando este passo, puramente para fins religiosos, especialmente passa de um regime onde Cristo é oferecido pela graça, para outro no qual a justiça nada tem com Cristo, dependendo inteiramente da conduta do homem. Ou o circuncidado entende isto e está preparado para as consequências de repudiar a Cristo e ao Evangelho, ou é uma dessas almas vacilantes e inconstantes, incapazes de uma decisão salvadora pela fé. “Quem duvida é semelhante à vaga do mar que o vento subleva e agita. Não cuide esse homem que alcançará de Deus alguma coisa.” (Tiago 1:6.)
As próprias leis humanas reconhecem o princípio em que Paulo se baseou para escrever o v. 3. É a doutrina jurídica da “escolha equitativa”, tão antiga como a lei romana e incorporada à legislação de vários países modernos. Li há pouco a seguinte definição do princípio: “Baseia-se sobre o princípio de que aquele que busca a equidade tem de se conformar com ela; que onde há dois direitos alternativos ou incompatíveis a escolher, sendo outorgado ao indivíduo o direito de escolher entre os dois, com a intenção manifesta de que não goze de ambos, então ele tem aceitar ou rejeitar um dos dois; em outras palavras, um litigante não pode aceitar um documento para gozar suas vantagens repudiá-lo para fugir de usas desvantagens. Embora seja doutrina jurídica raramente invocada, nem por isto deixa de ser lei, tanto nos Estados Unidos como na Inglaterra.” (Cita a decisão de um tribunal superior): “Quem aceita alguns benefícios de um testamento ou instrumento precisa adotar todo o conteúdo do documento, conformar-se com todas provisões e renunciar todos os direitos incoerentes com o benefício procurado, lealmente cumprir todas as disposições de testador.” Paulo, no terreno de lei, era especialista. Está de pleno acordo com as praxes de seus tribunais na civilização romana. Nada mais justo do que sua decisão: “Eis que eu, Paulo, vos afirmo que se fordes circuncidados, Cristo em nada vos aproveitará. Ora, vou repetir meu testemunho a cada homem que se circuncida, que ele é devedor, obrigado a por logo em prática a Lei inteira. Tantos quantos estão no afã de ser justificados numa esfera de lei já fostes, de vez desligados de Cristo, decaístes de sua graça.”
Nenhum adepto do ecletismo pode fazer para si uma bandeira nacional, escolhendo da bandeira do Brasil o Cruzeiro do Sulm da do Uruguai o sol, da Itália a coroa e a cruz, da do Vaticano as chaves, da Turquia o crescente, da dos EE. UU. as listas, e da de França um fundo tricolor e com esse ecletismo simbólico navegar os sete mares com direitos de cidadão de todas as nacionalidades representadas na bandeira. Não! Ele será tido por um pirata, não uma alma de mente e emoção “larga”. Semelhante bandeira é rival e traidora de todas as outras bandeiras, que parcialmente roubou e cuja jurisdição procura de qualquer maneira gozar. O ecletismo na religião termina ficando sem religião de espécie alguma.
4 “Tantos quantos estão no afã de vos justificar numa esfera da lei, já fostes anulados em separação absoluta de Cristo” – Cristo e Lei são duas estradas. Ninguém anda nas duas depois de passar a encruzilhada. Se está agora realmente no afã, na jornada, pela estrada da Lei, o fato torna claro outro fato. Já fizestes uma escolha terrível. Já vos separastes da outra estrada que lá na encruzilhada podíeis ter escolhido. Cada passo vos distancia mais de Cristo. todo o esforço apenas aumenta a distância. A escolha terrível consistiu em uma vez por a mínima confiança em lei, ritual, moral, nacionalismo ou religiosidade, para salvar. Quem opta uma estrada de vida, cancela toda a possibilidade de vida na outra estrada. Cristo é o caminho. Ninguém vai ao Pai senão por ele. Se num surto de loucura fatal fizestes vossa decisão final e irrevogável pela senda da Lei, então Cristo é nulo para vós e vós sois nulos para Cristo. agis em esferas diferentes e afastadas. Vós fostes roubados de Cristo; Cristo foi roubado de vós. O proselitismo judaizante privou o Salvador e o pecador da união de ambos, na graça que se canaliza por via da fé. A pior ladroeira na vida é esta que rouba a Jesus os frutos do calvário numa vida que podia ter sido salva, e rouba a esta vida sua parte em Cristo crucificado, prometendo-lhe por cerimónias e ritos e uma moralidade superficial e externa, a salvação e o céu. De todas as mentiras é a mais diabolicamente mentirosa. De todas as explorações, é a mais nefanda. Não é de admirar que Paulo exclamou: “Anátema.”
4 “Separados de Cristo” – “A religião de Paulo, como a antiga religião de Israel, exigia uma devoção absoluta e exclusiva. Podia alguém inscrever-se nos mistérios de Ísis ou Mitras sem, de todo, abandonar suas crenças anteriores; se pretendia, porém, ser recebido na igreja, de acordo com os ensinos de Paulo, importava desprezar outros salvadores pelo senhor Jesus Cristo”. (“The origin of Paul’s Religion”, por Machen, p. 9.)
4 “em separação de Cristo”… “fora da graça” – é uma das passagens em que alguns evangélicos incoerentes e os católicos romanos e outros legalistas baseiam sua propaganda da doutrina chamada “apostaria”. Esta doutrina anti-evangélica de alguns evangélica trata-se do seguinte. Converte-se alguém ao evangelho num avivamento religioso. Passado o fervor, este convertido cai em pecado, fica bêbedo, adultera, furta, briga na rua, comete um escândalo qualquer. “Apostatou.” Perdeu a salvação. É preciso em outro avivamento buscar a salvação de novo. E a vida cristã de tais evangélicos toma o aspecto de um passeio em dia instável. A religião é guarda-chuva. No momento em que chove, a pessoa esta tristonha, séria e eleva o guarda-chuva. Passada a chuvinha, volta a ser alegre, esquece o guarda-chuva, folga e dança. Vem outra chuva, outro avivamento de guarda-chuva. Passada a última gota, o triste guarda-chuva de novo se encosta.
“When Devil was sick, the Devil a saint would be.
When Devil got well, a devil of a saint was he.”
Tais pessoas não sabem a abc do Evangelho. Para elas, tudo depende das obras. Melhorando, durante a série de conferências evangélicas, sua vida exterior e gozando a camaradagem dos crentes, apressam-se em afirmar que são crentes também. Perdendo esta moral superficial, julgam tudo perdido, pois não sonham que ser salvo não é uma questão muito simples de guardar ou não guardar os dez mandamentos. Nunca por um instante da vida tiveram uma ideia evangélica, nunca souberam que o homem é salvo pela graça, pois se o souberam não pensariam que uma salvação que vigora num terreno de graça se perde tão frivolamente num terreno de obras e se ganha tão frivolamente de novo em outro terreno de obras. A opinião destes pseudo-crentes é absolutamente a mesma, em sua atitude fundamental que a dos judaizantes e suas vítimas entre os gálatas.
É quase inútil afirmar aos tais contradizentes da Palavra de Deus que esta vale mais do que suas opiniões tão dogmáticas. Dizem: “Mas eu SEI que fui salvo e que perdi a salvação.” Minha resposta é: “Pela autoridade da Palavra revelada da Santíssima Trindade eu contesto sua afirmação. O sr. não soube analisar sua suposta experiência cristã. A graça de Deus na experiência não é uma coisa fútil e efémera. A única vida cristã da qual o Espírito Santo é o autor pela regeneração é a VIDA ETERNA. Se o sr. não recebeu VIDA ETERNA de Jesus Cristo quando creu, não recebeu vida alguma, pois “o dom de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor”, Rom. 6:23. Se a suposta vida proveniente de Deus não se provou eterna, é prova que não foi de espécie alguma e que o sr. ainda está morto em seus delitos e pecados e sempre tem estado moral e espiritualmente morto. O sr. não está em condição de ter opiniões sobre doutrina cristã, porque doutrina cristã é espiritualmente discernida, e aos que não tenham a vida eterna, falta-lhes a capacidade de discernir realidades espirituais. Sua argumentação da lógica da carne nada vale. Temos uma revelação clara e cabal sobre o assunto. “Se alguns não tiveram fé, porventura a sua falta de fé anulará a fidelidade de Deus? De modo nenhum? Antes Deus seja achado verdadeiro, e todo o homem mentiroso.” Qualquer interpretação da vida eterna do crente que a faça degenerar numa vida instável, impotente e imoral de um vira-casaca incurável é uma mentira de baixeza blasfema, uma afronta à veracidade de Deus.”
Ora nesta passagem não se trata dessa casta de gente. Ninguém acusa os gálatas de ofensas contra a moral, neste transe de sua vida. Os judaizantes não estão incentivando-os para uma vida de boémios! Absolutamente o contrário! São pessoas que estão dependendo em sua abstenção de imoralidade e em praticarem a Lei para se salvarem. Sua vida procura ser imaculada. Quanto maior o êxito neste afã, tanto mais certa a perda de Cristo, o afastamento da graça, o desvio por completo do Evangelho, a fé genuína, o Espírito e a justiça objetiva do Calvário e subjetiva da santidade. No instante de decidirem que a estrada real de religião é guardar mandamentos para conseguir as bênçãos de Deus, partiram da encruzilhada dos caminhos da vida e da morte, escolheram o da morte. Cristo é nulo para eles, e eles são nulos para Cristo. são moralistas, no afã da salvação pela moral e pelo cerimonialismo, que são as vítimas desse terrível engano. Os fracos adúlteros e ladrões e bêbedos e mundializados que um dia afirmam ser crentes e outro dia afirmam ser perdidos não estão absolutamente no horizonte deste solene versículo. São uma casta de gente sem seriedade, inferior mesmo aos judaizantes, os quais, se abraçam o sistema de guardar mandamentos, pelo menos faziam um esforço sério de vida estável no que professavam. (Meu opúsculo “A Salvação do Crente é Eterna” discute esta e muitas outras passagens paralelas em relação ao mesmo assunto). Naturalmente, há muitos crentes cuja lógica anda pela cabeça alheia enquanto seu coração se apega somente a Jesus no íntimo, fundamento de sua esperança de salvação. Os tais são salvos a despeito de sua lógica. A graça que não sabem discutir foi e é eficaz e suficiente para os salvar e guardar eternamente, a despeito de sua lógica sectária.
6 Sobre a frase “em Cristo”, David Smith diz: “Em Cristo, a fórmula que expressa em resumo a relação do crente a Cristo e tudo que daí resulta, nunca é encontrada nos Simóticos, e no Quarto Evangelho apenas em conexão com as frases “permanecer” e “ser um”. É puramente de Paulo, e se refere exclusivamente ao Senhor ressuscitado (cf, II Cor. 5:16). A ideia tem várias analogias: o homem tem de estar no ar para poder respirar, o peixe na água para viver, a planta no solo para crescer. Observai o nexo da experiência cristã, segundo Paulo: (1) Cristo em nosso lugar – Substituição (cf. II Cor. 5:21). (2) Nós em Cristo – Justificação (cf. II Cor. 5:17; Rom. 6:11). Ele morreu por todos (cf. II Cor. 5:14, 15; João 3:16), portanto, todos salvos in posse, mas nenhum in posse a não ser que esteja em Cristo, descansando sobre Ele pela fé pessoal que apropria para si a salvação. (3) Cristo em nós – Santificação (cf. Gál. 2:20; II Cor.13:5; Rom. 8:10). Tanto está o ar no animal como o animal está no ar. (4) Nós em lugar de Cristo – Consagração (cf. II Cor. 5:20). (“The life and Letters of St. Paul”, p. 202).
6 “Uma fé que é sempre operosa por via de amor” – Paulo, bem como os judaizantes, cria que o guardar a lei de Deus está, em seu aspecto mais profundo, inseparavelmente ligado com a fé. A diferença consistia na ordem – talvez nem na ordem temporal – de três passos. Dizia Paulo que o homem (1) primeiro crê em Cristo, (2) é justificado, depois, diante de Deus, (3) e começa então imediatamente a guardar a lei de Deus. Os judaizantes diziam que homem (1) crê em Cristo, (2) guarda a lei de Deus o melhor possível, (3) e é então justificado. A diferença pareceria ao cristianismo moderno e ‘prático’, assunto altamente sutil e intangível, pouco digno de consideração, em vista da grande proporção de acordos no terreno prático.
“Tal pretensão de associar com a obra de Cristo nosso próprio mérito, Paulo via, claramente, ser a essência da descrença: Cristo fará tudo, ou nada fará. Assim a única esperança é atirar-nos sem reservas sobre sua misericórdia e confiar nêle para tudo.” (Christianity and Liberalism,” por Machen, p. 24 e 25.)
9 Acontece que às vezes, pessoas emancipadas não gostam da liberdade. Preferem a gaiola, a prisão, o jugo sobre a cerviz. Os gálatas eram desses insensatos. Paulo considera erro religioso uma escravatura. V. 9.
O apóstolo sempre afirma predestinação e escolha do povo de Deus. “Conhecendo” e “conhecido” são termos que indicam inclusão no pacto da graça. Paulo afirma que ser “conhecido” por Deus vem antes de conhecermos a Deus.
Sua classificação das cerimónias é: “rudimentares, impotentes e depauperadas”. Alias, não há maior impotência do que uma religião que consiste principalmente em cerimónias. Suas vítimas são escravizadas.
11 “ofensa da cruz” – “Que dizeis?!!! EU, que incorri no ódio figadal dos judaizantes, EU, que estou exposto a uma perseguição sem fim partindo deles, estou eu pregando a circuncisão? Então, dizei-me por que razão é que eles me perseguem?! Com toda a segurança assevero, antes, que aquilo que os escandaliza em minha doutrina, a cruz, com sua expiação eficaz do pecado, ficou desfeito, se eu, como querem agora vos alegar, adotei o método deles e principal a pregar a circuncisão.” (Ramsay, in loco).
1 “ofensa da cruz” – “Duplo escândalo: (1) a ideia de um Messias crucificado, visto que os judeus esperavam um rei vencedor; (2)a necessidade de expiação, visto que na concepção deles concernente à Lei o arrependimento e a prática cerimonial bastavam.” (David Smith in loco).
12 Dificilmente o Ocidente entenderá o Oriente e Escritura orientais. Na Índia a terra está cheia de templos dedicados ao sexualismo. Há tantas e tão vastas imagens do órgão másculo da procriação que a adoração do falo parece a religião nacional. E o judaísmo, partidário do extremismo farisaico, crescia no sexualismo. Também para eles a magna arena das vitórias do proselitismo estava no terreno do prepúcio. Paulo disse que o móvel de toda essa inglória campanha judaizante era para que contassem prepúcios circuncidados, como o índio norte americano gabava de seu scalps – “querem fazer-vos circuncidar para se gloriarem na vossa carne,” Jesus disse que os fariseus rodeariam o mar e a terra para fazer um prosélito; e depois de conquistá-lo por esse rito sujo, seu propósito estaria acabado e, em companhia deles, o neófito no judaísmo, só com esse “sacramento” imundo para o santificar, se tornaria, logo em dobro, um espírito infernal mais perdido do que seu iniciador no proselitismo. Terrível linguagem do “meigo” (?) Nazareno! A de Paulo não é mais violenta, mas é um pouco mais direta. Ele faz votos para que no seu entusiasmo pela obscena cirurgia fossem além da circuncisão e se castrassem. V. 12. Não se permite a Paulo dizer em nossas versões o que ele realmente pensava e disse. Esta é a luta mais tremenda dos séculos. A Epístola aos Gálatas não é uma poesia senão um brado de guerra. O terreno de suas discussões não é um instituto de beleza mas um campo de batalha. Os pacifistas em apologética e os covardes em doutrina acharão mais sossego em outro canto lendo seu “Chácaras e Quintais” ou as novas efusões poéticas. A Epístola aos Gálatas é o Lusíadas da literatura bíblica, da vitória da cruz sobre uma superstição poderosa, indolente e suja. Só compreendendo esses fatos é que podemos mesmo tolerar, para não falar em acolher, esta Escritura, mas rodas polidas da sociedade efeminada hodierna.
Paráfrase: 13-15. Disse estas palavras duras porque a ofensa do agitador judaizante é gravíssima. Deus vos chamou para a liberdade evangélica. Esta não é de livre escolha, é essencial ao cristianismo. O antagonista, pois, anula o próprio propósito divino na vossa chamada, baixa alvo por Cristo estabelecido, remove o “escândalo” da cruz. Ao querer afastar-vos do terreno onde podeis ser livres, ele quer-vos afastar do terreno onde podeis ser salvos, santos e espirituais, pois a graça, a fé e o Espírito são a fonte de tudo isso. Apresso-me em dizer, porém, e com igual intensidade, que a liberdade evangélica não é licenciosidade carnal. Não. Nossa liberdade é escravidão mútua voluntária. Vivei como servos mútuos sempre. “Benditos laços são os do celeste amor”. Mas, são laços. Não podemos seguir o nosso bel-prazer. Somos presos ao amor fraternal. Cuidai dos perigos de controvérsia, mesmo sobre o Evangelho. Se a controvérsia afugenta de vossos corações o amor, e viveis quais feras numa jaula, mordendo-vos e arranhando-vos, sentido! O partidarismo é seu próprio castigo. Uma facção não ficará triunfante sobre outra. Ambas se aniquilarão mútua e tragicamente.
13 “chamados para um regime de liberdade” – Firmemos em nossos corações que a liberdade é um sagrado dever cristão. Cristo é seu autor. Estão desfazendo o que Cristo fez os que diminuem ou usurpam a liberdade de consciência do homem em Cristo. “Para tamanha liberdade Cristo nos libertou a nós. Perseverai na firmeza, portanto, e deixai de ficar emaranhados novamente num jugo de escravidão.” A liberdade não é facultativa. É elemento indispensável ao caráter varonil, da espiritualidade cristão, da responsabilidade humana. Ninguém pode ser responsável se não for livre. O boi não é responsável, e de si próprio não puxa o arado. Ele trabalho por causa do jugo e do ferrão e do chicote.
É um sinal de depravação humana que os homens queiram o jugo do judaísmo, do jesuitismo, e do sacramentalismo sobre suas cervizes. São os decaídos que pedem o jugo, que anelam pela escravatura, que oferecem as mãos às algemas.
Cristiano nos deixou alternativa. Temos de ser livres. Pois, o cristianismo é uma vida, uma vida de eternas responsabilidades, e ninguém pode ser responsável se não for livre. Se não é livre, sua primeira responsabilidade é a libertar-se. Questões entre a alma e seu Deus escusam a intervenção de terceiros. Somos obrigados pelo Novo Testamento a ser democratas na religião e individualistas na fé e na obediência que rendemos a Cristo.
Essas ideias, porém, são perigosas às almas que não forem dominadas por Cristo, às almas que não forem cristãs. O cristianismo é a aceitação de Cristo como Senhor, e Sacerdote e tudo mais para os misteres religiosos de nossas almas. Quem finge ser cristão, sem o ser, naturalmente fará naufrágio da liberdade como “esgoto da carne”.
13 “carne” – Nunca nos enganemos com a ideia de que “a carne” quer dizer o corpo, nosso elemento físico, as arrobas de nosso peso. O pecado não reside aí. “a carne” não é o corpo, nem está no corpo. A sede da responsabilidade está na alma, na consciência. “A carne” quer dizer nosso ser não regenerado, tudo quanto em nós não tiver sido santificado por Cristo. Paulo fala da “mente da carne”, Rom. 8:7, “a vontade da carne”. Efés. 2:3, “entendimento da carne”, Col. 2:19 e notai quantas “obras da carne” são pecados intelectuais e espirituais. A carnalidade é uma moléstia da alma, das raízes morais do nosso ser, e não moléstia física como a sarna ou a bexiga. Cristo ensina que todo o pecado procede do íntimo do homem, do “coração”.
13 “vivei em escravidão mútua” – A liberdade cristã é social e sacrificial. O contrário da carnalidade não é o ascetismo, mas a sociabilidade santa e altruística. Somos salvos um a um, numa responsabilidade pessoal e isolada e particular, e, na salvação, somos sobrenaturalmente colocados na família de Deus, no reino de Cristo, na irmandade dos santos, e temos que funcionar socialmente. Rescusemos aceitos o jugo de escravidão; “vivei em escravidão mútua”. É o paradoxo da graça e espiritualidade. Um grupo de individualistas sem vontades santificadas, se mordendo e se consumindo mutuamente, é a coisa mais afastada do cristianismo almejado por Jesus que se possa imaginar. A soma toda a virtude cristã é: “Amarás ao teu próximo como o ti mesmo”.
Parecemos uma dupla personalidade, gémeos que sejam inimigos, cada um lutando para própria vida diária. Esta personalidade dividida, nós a conhecemos demais. Tão boas resoluções, tão santos propósitos. E quanto fracasso, quanta carnalidade inesperada, quanta tentação que nos assola, e nos vence incontinente. Prevenido é ser meio armado. Se não tivermos demasiada confiança, mas, pelo contrário, avaliarmos que estamos numa luta que nunca termina, não seremos tão facilmente tomados de surpresa pela tentação. Humilhai-vos, pois, na vossa própria personalidade; existem recursos de perversidade satânica no vosso próprio coração, uma falange de impulsos diabólicos na cidadela da vossa alma. É preciso lutar contra este inimigo que é o próprio eu do homem, e substituir seu domínio pelo poder e autoridade de Cristo. de outra maneira, o vosso cristianismo é negativo.
13 “O contraste entre “carne” e “espírito”, portanto, não é o contraste entre a matéria e o espírito; é, porém o contraste entre a natureza humana, da qual o pecado apossou-se, e o Espírito de Deus.” (“The Origim of Paul’s Religion”, por Machen, p. 265 e 276.)
14 Vede, no fim deste livro, o estudo suplementar sobre “O Fruto do Espírito” e a discussão deste versículo, citado também por Jesus Cristo no mesmo espírito. Sobre o facciosismo e os males da controvérsia, lede a nota sobre versículos 19 e 26.
Paráfrase: 16-24 – Longe dessa obra destrutiva de facções nas igrejas aí ser a liberdade evangélica, é duplamente nociva. Seu princípio fundamental é o legalismo, que é anti-evangélico; e sua atitude característica é destrutiva, faccionado a unidade essencial de cada igreja e a cooperação de todas elas. O legalismo e a carnalidade, pois, são os aspectos dessa vida judaizante; pela Lei a liberdade é negada, pela carne é contrafeita. Outra vez o ecletismo é impossível. Como tendes de escolher entre Cristo e a circuncisão, igualmente haveis de optar entre o poder vivo no Espírito santificador e a energia da carne nos seus esforços impotentes para guardar a letra morta em obras mortas. Eu vos exorto a optar pelo Espírito e a tomar cada passo de vossa peregrinação no Espírito Santo, pois é a única esperança de serdes santos. A Lei e o Espírito igualmente condenam a carne, que é a vossa personalidade em todos os seus aspectos e tendências, à parte da graça de Deus. A Lei é impotente para conseguir coisa melhor. O Espírito é eficaz. “Minha graça te basta,” dirá o Senhor em cada emergência da vida. Simplesmente não são cidadãos do reino de Jesus Cristo os que vivem em sexualismo, em superstição, na animosidade, e na atmosfera do agitador ou numa vida social desregrada. Pelo contrário o efeito manifesto vital do poder do Espírito na vida cristã é o caráter ideal. Contemplai uma personalidade em que estão completos, simétricos e harmoniosos o amor, o gozo, a paz, a longanimidade, a operosidade benfazeja, o bom caráter, a fidelidade, a mansidão, o domínio próprio. Esta personalidade terá que temer qualquer lei? Bem sabeis que nunca houve lei que a igualasse nem haverá lei que a toque para fazer-lhe mal. Para a obra completa do Espírito Santo em vós, quando comparecerdes no juízo, os justos aperfeiçoados, não há lei universo que seja capaz de uma sentença condenatória. Largai o medo de lei, pois, considerai a carne morte no Calvário e expandi em vós a vida do Espírito de Cristo.
17 “continuamente… em contrariedade” – Entre a natureza baixa do crente e o Espírito no seu coração há uma guerra constante. Não podemos chegar, por isso, à perfeição nesta vida v. 17. A confiança na Lei, porém, é uma arma carnal e fraca. A verdadeira esperança da vitória é por meio do Espírito Santo. Podemos com o seu auxílio e soberania em nossas vidas crucificar as paixões e cobiças da carne e encher a nossa experiência com o poder das bênçãos do fruto do Espírito.
19 Vejamos a operosidade do nosso eu decaído, “a carne”. São quinze obras que Paulo enumera e outras são subentendidas. Podemos dividi-las em grupos quais cachos de frutas amargas e venenosos.
Primeiro cacho – o pecado sexual. O dom do sexo é santo, e visa os mais nobres ideais que Deus implantou na humanidade – a paternidade, o doméstica, a perpetuidade da raça com uma forte hereditariedade salutar, a proteção da mulher e dos filhos, os alicerces da sociedade, do Estado, e da religião. É o abuso dos grandes dons, porém, que constitui grande pecado. É o excesso, a imposição, o desprezo de direitos mútuos, a ausência do apoio da sociedade a essa solene união, pelas suas formas estabelecidas, a bestialidade, a ignorância de que o amor é querer o bem estar da pessoa amada e não a gratificação própria – tudo isto engolfa a humanidade numa onda de miséria. E o mais santo gozo e dom de Deus que foi dado à nossa raça se torna fonte de amargura, moléstia horrível, anarquia, corrupção, imundícia, a religião, e uma praga até a terceira e quarta geração que é pior que todas as pragas do Egipto.
Jesus chamou a sua geração “esta geração adultera”. Pois seu principal característico foi a perda da moral e domínio próprio no terreno das paixões sexuais. Quando enumerou os mandamentos a um moço, colocou em primeiro lugar: “Não adulterarás.” E Paulo também servia a Deus numa geração adúltera, talvez a mais adúltera que a história humana tenha conhecido, a geração do Nero e Petrônio e dos Herodes. As primeiras obras da carne que o apóstolo menciona são a prostituição, a impureza e a lascívia – atos, pensamentos, palavras, hábitos e cobiças itícitas, de natureza sexual. O primeiro perigo de todos, ei-lo aqui.
O segundo grupo de pecados a que o homem natural é inclinado são: a idolatria e a feitiçaria – superstição, o receio do que haja poder sobrenatural inerente em coisas materiais e atos físicos. Toda esta superstição é do homem natural, o homem sem Deus, o homem decaído. É tudo entrando ao homem sobrenatural, o homem em Cristo, o homem crente. A idolatria é todo o culto a imagens ou a coisas materiais, embora o adorador vise agradar a um espírito invisível e espiritual. Aliás, não há idolatria que não vise agradar a algum espírito, por curvares diante de uma coisa material que o represente.
A feitiçaria é típica das superstições que julgam haver poder sobrenatural em atos físicos, em cerimónias. toda a confiança em sacramentos como meios de graça salvadora é da mesmo essência que a superstição.
O terceiro cacho da árvore do mal é: “discórdias, disposição contenciosa, ciúme, surtos de ira a ferver, politicagens, separações por desconfiança, facções, invejas”, - oito frutos venenosos e amargos. São o elemento principal da carnalidade.
Verdadeiramente, temos aqui o perigo principal das igrejas, contendas internas, movimentos partidários, inimizades, ciúmes, invejas. Tudo isso se manifesta. Que cada qual saiba afasta-se do começo de toda a facção numa igreja. Que nos lembremos de que a resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura excita a ira. Que compreendamos que o espírito faccioso é pecado, evidência de que sua vítima nada sabe do reino de Deus, v. 21.
Restam duas obras da carne: as bebidas e as festas licenciosas. Parece estranho haver necessidade de semelhante exortação a igreja, mas também hoje em dia não estamos isentos de semelhante carnalidade na comunhão das igrejas.
19 Por que o apóstolo Paulo – compreendendo-o como a pronunciar o julgamento cristão – estabelece tão enfaticamente que a embriaguez é um impedimento à “herança do reino de Deus”? Isso não pode ser esquecido como uma simples ameaça eclesiástica, aplicando provas artificiais com respeito ao membro de uma igreja nesta vida, ou à entrada em um lugar denominado céu na vida de além. O reino de Deus significa o governo de Deus na vida humana, conduzindo homens e mulheres a tal ordem e relação social que resulte em plenitude de vida e de todos os seus poderes e graças. Isto naturalmente implica numa sociedade corporificada daqueles que são assim governados, e tal corporificação do reino de Deus deverá ter seu início em um lugar ou noutro, em algum tempo neste mundo, ou em lugar e tempo que corresponda ao que chamamos o “outro mundo”. O império, o reino, o governo de Deus, porém, é sempre descrito em termos de caráter; os princípios de ordem são: verdade, justiça, e amor ou boa-vontade, e os característicos resultantes são tais como: amor, paz, alegria, força, etc. A embriaguez nada tem em comum com estas coisas. Pelas mais acuradas provas científicas verifica-se que ela obumbra a vista, incompatibilizando-a com a verdade; choca-se com justiça, pervertendo o juízo; paralisando a vontade, certamente impossibilita a boa-vontade.
É significativo, para a interpretação cristã de nosso problema, que, na lista dos “frutos do Espírito”, o último lugar – de um ponto de vista, o clímax – é dado à “engkrateia”, domínio próprio. No maravilhoso simbolismo da Cidade Santa, de origem divina, a qual porém, descerá à terra, a pedra de cúpula das virtudes fundamentes é a ametista, que significa “não ser ébrio”. São o aspecto positivo e negativo da mesma coisa. Pois que a embriaguez é o solvente do domínio próprio, inimigo de toda a sociedade humana e divina. A embriaguez, por sua natureza, exclui da sociedade, pois o homem que não se controla é um perigo para os outros, bem com é incapaz de participar devidamente da cidadania. Em defesa própria, a sociedade tem de tratá-lo, não como cidadão real, às vezes, porém, como criminosos, talvez lunático e ainda como criança. (Citado de uma revista).
21 “reino” – “Jesus e Paulo apresentam o mesmo ponto de vista quanto ao reino de Deus. O termo ‘reino de Deus’ não é muito frequente nas Epístolas; é usado, porém, como sendo familiar aos leitões e quando ocorre, tem o mesmo sentido que nos ensinos de Jesus. A similaridade aparece, primeiro, em um característico negativo – tanto com Jesus quanto com Paulo, a ideia do Reino está divorciada de toda a associação política e material. Isto pode parecer-nos o mais lógico dos fatos. Não o era, porém, no judaísmo do primeiro século. Bem contrariamente, significava nada menos que uma revolução no pensamento e na vida.
“A similaridade não é, porém, meramente negativa. Em seu aspecto positivo, o reino de Deus nos ensinos de Paulo é semelhante ao que aparece nos ensinos de Jesus. Tanto Jesus quanto Paulo advogam que na admissão pesam implicações éticas. ‘caso não sabeis,’ diz Paulo, ‘que os injustos não herdarão o reino de Deus?’ ( I Cor. 5:1-9). (“The Origin of Paul’s Religion”, por Machem, p. 160.)
22 “fruto” – Existe no vosso quintal uma árvore cuja natureza esteja em dúvida? Esperai pelo fruto e será conhecida. Sabemos, do mesmo modo, que temos o Espírito Santo porque seus frutos aparecem em nossa experiência, amadurecem em nossa vida.
Como a primeira obra da carne é o amor degenerado, a sexualidade, assim também o primeiro fruto do Espírito é o amor genuíno. É uma graça e virtude mais larga, mais profunda, mais cheia de afeto e ternura do que a “caridade”.
Não deixemos ao mundo as poderosas palavras que expressam a experiência cristã. Santifiquemo-las pelo Evangelho. Um termo que traduzimos por amor no Novo Testamento significa beijar, no grego profani; foi, porém, usado pelos apóstolos a respeito do amor espiritual que temos para Deus. Não consentiram em abandonar para os depravados uma palavra santa. De igual modo elevemos o vocábulo “amor” à sua categoria de membro das três graças, aliás a mais excelente de todas, segundo o hino de I Cor. 13, cantado por Paulo.
O primeiro sentimento operado em nosso ser regenerado é o amor a Jesus Cristo e a Deus que no-lo deu, e então ao seu povo e ao mundo perdido que Cristo ama. Este amor é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo que nos é dado. Rom. 5:5.
Podemos amar àqueles de quem não gostamos, pois o amor é a disposição de dar-nos a nós mesmos em benefício de outrem.
O assunto negativo da Epístola é a Lei e a sua impotência salvadora, moralizadora e santificadora. Aqui temos o ensino positivo e prático, a alternativa evangélica ao legalismo – o fruto do Espírito na vida dos regenerados, dos justificados por meio da fé salvadora e santificadora. É tão desprezado este assunto, hoje em dia, tão negligenciado este ideal da vida cristã, que demos um estudo suplementar a sua interpretação e aplicação à vida da atualidade. Para este estudo chamamos a atenção especial do investigador e acrescentamos aqui mais algumas notas.
22 “amor” – Há duas pirâmides que se vêem na vida. Os atletas fazem, na sua ginástica, uma pirâmide humana. Um ágil moço galga posição no ar, descansando os pés sobre os corpos de seus colegas inferiores em posição. Outro passa por cima de seus ombros, até quase tocar a cabeça do mais elevado no teto da casa. estas pirâmides são inseguras. Quem as vê formar-se bem sabe que irão desfazer-se tão rapidamente quanto se ergueram. Assim é a vida ou a igreja que se edifique sobre o egoísmo ou a ambição.
As pirâmides do Egipto duram ainda após tantos séculos. Seus alicerces não são de momento, de uma ágil prestidigitação. E não são apenas de pedra dura. Ali, também, se construiu sobre vidas, vidas cultas e peritas, vidas incultas mas trabalhadoras, vidas de soberanos, engenheiros, matemáticos e pedreiros, a vida unida de um vasto império de sabedoria, culto e poder. E seu monumento permanece através dos séculos. Assim Cristo edifica. Ele se faz de si mesmo, por um sacrifício eterno, o alicerce e de nós as pedras vivas, cada uma firme e inabalável em seu lugar. Jesus ainda edifica. E a argamassa que ele usa é o amor, a disposição que o crente espiritual sente de dar-se a Cristo e de encher seu lugar e desempenhar sua missão altruística.
22 “paz” – Um vizinho meu enloqueceu. Sua mania era tomar grandes sacos de sal e sair nos campo a semeá-lo. Todo o dia, trabalhava como escravo, arduamente semeando o sal. Assim é a mania do amargurado. Semeia a amargura e destrói o gozo, a paz, e todo o demais fruto viçoso do Espírito na sua própria vida, no seu lar e igreja e no meio ambiente social. Semeai a paz e a colhereis, com espiritualidade.
24 “Crucificaram” – Vede a paráfrase e a nota sobre 6:14.

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