Conferencista Edimilson Garcia

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

- ESTUDOS SUPLEMENTARES - Epístola Aos Gálatas O Período de Transição do Judaísmo para o Cristianismo


O período de transição do Judaísmo para o Cristianismo 
João Batista veio, talvez no ano 26, e batizou o Mesias. Deu-se no ano 70 a destruição de Jerusalém e o estado teocrático, subordinado ao império romano, sede do templo, dos seus sacrifícios e sacerdócio, o centro da vida judaica da Palestina e da Diáspora mundial. Este período de menos de dez lustros foi o mais importante na história da raça humana. Uma fase de sua natureza peculiar passa despercebida à média dos leitores do Novo Testamento. Não avaliam que nesta época quase tudo é extraordinário e excepcional, senão os elementos essenciais da experiência cristã comuns a todos os crentes, em todos os tempos e lugares. É indispensável avaliar certos elementos peculiares aquela situação para entender a vida cristã primitiva, os problemas que surgiram na carreira apostólica e que recebem atenção nas epístolas, mas que para nós já não são problemas, antes são quase incompreensíveis em nosso meio ambiente. 
Há uma diferença abismal entre nossa vida, nosso costumes e o que lemos de Jesus e os Doze. Basta enumerar dez fatos elementares da conduta de Jesus, nenhum dos quais se verifica em nossa vida. 
1. Jesus foi circuncidado de acordo com a lei levítica e o costume sabático, Luc. 2:21, João 7:22. Não há um crente hodierno em dez mil que, neste respeito, siga o exemplo de Jesus. 
2. Nosso Senhor assistia o culto judaico numa sinagoga, cada sétimo dia da semana. Eu nunca estive senão em um culto realizado numa sinagoga e foi numa noite de sexta-feira, um discurso popular que me atraiu. Os prezados leitores já tomaram parte em um culto de sinagoga? Provavelmente não. Mas quão diferentes somos neste respeito, do nosso Salvador. 
3. Jesus, em conformidade com a Lei (Ex.23:14-17), peregrinava a Jerusalém três vezes por ano, como faziam milhões de judeus de todo o mundo civilizado. Nunca estive em Jerusalém e nem sei observar a Páscoa, Pentecostes ou o Dia de Expiação, como Jesus fielmente os observava. 
4. Jesus acompanhava os sacrifícios de bois, bodes, aves, cereais etc. e teve sua parte nisto e pagou uma taxa pela manutenção do templo. Nunca vi animal sacrificado, nem sangue aspergido sobre um altar e sobre os adoradores, nem paguei um centavo para manter o culto israelita. 
5. Jesus não comeria à mesa com qualquer um de nós nem nos teria evangelizado, nos dias de sua carne, se não fossemos também judeus, com talvez raras exceções predestinadas à graça especial por motivos do propósito divino, Luc. 4:25-26, Mat. 10:2-6. 
6. Nosso Mestre guardava o sábado, se bem que não as tradições acumuladas sobre o dia original, e, mediante dois ensinamentos, preparou o povo para a abolição do sábado: (I) a declaração de que o Filho do Homem era “Senhor do sábado também”, o sábado entre todos os demais elementos preparatórios, de revelações anteriores; (II) em citar o Decálogo ele aumentou a ênfase sobre a moral, dizendo ao moço rico: “não furtarás” e “não defraudarás,” quando o Decálogo tem apenas um dos dois mandamentos; ele, porém, sempre omitia o mandamento sobre o sábado, pois sabia que haveira de caducar. 
7. Jesus obedecia às autoridades judaicas e mandou obedecê-las, Mat. 23:3. Nós outros jamais obedecemos a judeu nenhum, nem ao menos por estar sentado na cadeira de Moisés. 
8. Jesus por a mesma do banquete evangélico para os filhos de Israel. Com relutância cedeu mesmo umas migalhas aos “cachorrinhos” gentios. Mat. 15:26. Semelhante linguagem em nós seria presunçosa, hipócrita e intolerável. 
9. Jesus fez pelo menos uma reforma, e esta duas vezes, no judaísmo. Expulsou do templo a comercialização do sistema sacrificial. Nós não o reformamos, pois Deus o abandonou quando rasgou, de cima a baixo, o véu do Santíssimo lugar. 
10. Jesus observou a páscoa e se fez o cordeiro pascoal, a realidade da qual as pálidas festas cerimoniais eram sombras. Logo, tendo a realidade, o corpo, não buscamos voltar ao regime das sombras. Col. 2:17. 
Para que continuar? A vida religiosa de Jesus era completamente diferente da nossa. Suponho que qualquer leitor dessas palavras, sendo evangélico, seria excomungado da sua igreja se mesmo de leve praticasse estas coisas que eram a praxe invariável da religião do judeu Jesus. 
Ora, os apóstolos e a igreja primitiva de Jerusalém viviam nitidamente uma vida judaica no templo, nas suas orações, sacrifícios e festas. Atos 2:46; 3:1, 11; 4:1, 5; 6:9, 15. Paulo também agia com judeu leal nas sinagogas e no templo em Jerusalém, Atos 13:42, 44; 18:4; 19:8; 20:16; 21:17-26; 23:5, 6; 28:17-28. Citamos apenas um destes casos. Tiago, na ocasião do última visita de Paulo a Jerusalém, disse-lhe: “Bem vês, irmão, que milhares há que têm crido entre os judeus E TODOS SÃO ZELOSOS DA LEI; e têm sido informados a teu respeito de que ensinas todos os judeus que estão os gentios a apostatarem de Moisés, dizendo-lhes que não circuncidem seus filhos nem andem segundo os nossos ritos.” Paulo concorda com Tiago que o boato é calúnia, e, para demonstrar que é, associa-se com um voto cerimonial de quatro homens judeus e paga as despesas no templo. Assim ficou demonstrado, como Tiago queria, que Paulo “andava retamente, guardando a lei” quando estava na Palestina, na jurisdição desta lei. Já passara algum tempo desde que escrevera a Epístola aos Gálatas, quando ele assim guardou reverentemente a lei e os seus ritos. Como explicar isso? 
A explicação é muito simples. A lei de Moisés era a lei civil e religiosa da Palestina, com umas tantas restrições impostas pelo império romano. Na Palestina, Paulo e os demais judeus estavam tão subordinados a esta lei mosaica com nós no Brasil estamos subordinados às leis da constituição e legislação brasileiras. Se qualquer um de nós conseguisse morar na cidade do Vaticano, ficaríamos sob a lei canónica. Numa teocracia a lei civil e a lei religiosa se confundem. Israel era um teocracia. Os sacerdotes eram políticos. Os judeus eram cidadão e deviam obediência aos que se sentavam na cadeira de Moisés. Jesus e Paulo impunham obediência a estas autoridades, na Palestina. Outrossim, cada sinagoga era uma colónia da teocracia, em qualquer parte do império romano e podia açoitar judeus rebeldes, e o sumo sacerdote mandava “apóstolos” de Jerusalém a estas colónias subordinadas ao sacerdócio e ao sinédrio. Saulo de Tarso fora um apóstolo perseguidor, órgão desta autoridade quando foi a Damasco. Paulo ficou sempre relacionado com a sinagoga, nas cidades romanas, e, chegando em Roma preso, convocou em primeiro lugar a colónia judaica, da qual automaticamente fazia parte até que se efetuasse uma separação formal. 
Como um maometano no Brasil é obrigado a observar o domingo, embora seu “sábado” seja a sexta-feira, e como um judeu fecha sua loja no domingo, embora tenha seu culto judaico nos sábados e Pentecostes e luas novas, etc., assim o crente judeu, como judeu, na terra dos judeus obedecia fielmente à lei judeus – sábados, dízimos, festas, ritual – e como cristão obedecia aos mandamento de Cristo e ao ensino apostólico – o dia do Senhor, o primeiro dia da semana, a igreja, o batismo, a ceia, os cultos separados para o povo crentes, a obra de evangelizar o mundo e todo o dever cristão. 
Um crente, porém, nunca teria qualquer obrigação palestiniana da lei teocrática, peculiar ao povo de Israel. Desde o momento de crer, sua vida cristã nada teria de judaísmo, mas somente seus deveres cristãos. Usaria o Velho Testamento para conhecer a promessa do Messias e as lições práticas e devocionais de sua história e poesia, mas não para praticar seu cerimoniosíssimo. 
De 70 d. C. em diante, perece a teocracia e o Pentateuco já não é lei civil para pessoa alguma, quer judeu ou crente. Daí em diante ninguém observa sábado ou ritos judaicos por obediência às autoridades públicas, mas unicamente por um dos dois motivos: (I) ou ele é judeu, nascido ou prosélito, e observa o ritual religioso de sua grei; (II) ou ele é vítima de alguma enganada e enganadora seita judaizante nominalmente cristã. Volta para o terreno da velha aliança nacional de Israel, agindo como judeu (falso) para ganhar mérito (fingido) num sistema cristão (espúrio) de salvação pelas obras (mortas). A Epístola aos Gálatas é o antídoto para este veneno e deve ser dada em doses fortes aos fracos da fé para evitar a terrível moléstia judaizante. 
Uma das verdades mais elementares no estudo das Escrituras é a ideia de revelação progressiva. O que é dever num livro da Bíblia, para seus contemporâneos, passa a ser crime, em outro livro da Bíblia, para seus contemporâneos. O bíblico torna-se anti-bíblico, na marcha da revelação para novas ou mais amplas verdades, até cheguemos à perfeita revelação em Jesus Cristo e sua adequada interpretação, no Novo Testamento. 
Para os israelitas era dever matar todo o povo de Canaã, logo ao entrar na terra da Promissão. Eram idólatras, prevalecia a responsabilidade, universalmente aceita, da solidariedade da família e da tribo. Logo, a única maneira de exterminar a idolatria era exterminar os idólatras. Se o Japão, porém, ao conquistar a China, fizesse isto, ficaríamos pasmados e furiosos. E com razão. A ideia de solidariedade de família ou nação passou. Jeremias e Ezequiel anunciaram a doutrina da responsabilidade pessoal. Fizeram larga exegese e uso da nova aliança com sua forte ênfase sobre o valor da personalidade, a competência de cada alma perante Deus sob sua graça, e o individualismo no terreno da experiência da salvação. O que fora bíblico passou a anti-bíblico. 
A poligamia era bíblica nos dias de Davi e Salomão. Agora é anti-bíblica. Assim o divórcio, tão promíscuo e sem freios no judaísmo dos dias de Jesus. Assim o completo sistema levito. Paulo repudiou-o totalmente na Epístola aos Gálatas. E na aos Colossenses ele declarou que Cristo tinha “cancelado o escrito da dívida que era contra nós e que constava de ordenanças, o que nos era contrário, removeu-o inteiramente, cravando-o na cruz.” Col. 2:14, 15. Pode haver dúvida? Era dívida. Já não é. Cristo o “removeu inteiramente.” Cristo o cancelou. Não tem mais valor do que os pregos enferrujados e a madeira podre das três cruzes que se ergueram no Calvário. 
Por isto, escrevi há pouco este estudo de “Três Verdades sobre a Lei”, (“No Jornal Batista”): 
Nossa distinção moderna entre lei cerimonial e lei ética não existe na Bíblia. A própria lei de Moisés a ignora. No mesmo contexto fala, no mesmo instante, sobre o Anjo de Jeová e sobre a proibição de cozer uma cabrita no leite da cabra mãe. Os escribas já descobriram os grandes mandamentos da Lei. (Mar. 12:30-33). Quer no Velho quer no Novo Testamento, porém, não há uma separação entre a lei moral e a lei cerimonial. O Evangelho e suas Escrituras cristãs substituíram completamente a legislação mosaica, tanto moral como cerimonial. Rom. 10:4, no original, não tem verbo. “Cristo, término de lei, para todo o crente concernente a justiça. A palavra enfática é término. Cristo terminou a lei, como a morte termina a vida terrestre. No terreno da justiça perante Deus a lei já não tem função alguma. Cristo é tudo. 
I. Há, porém, uma hostilidade especial no Novo Testamento a uma parte da Lei – às suas ordenanças. “Alguns homens, descendo da Judéia, ensinavam aos irmãos: Se não vos circuncidardes, segundo o rito de Moisés, não podeis ser salvos. Tendo tido Paulo e Barnabé uma grande contenda e discussão com eles…” resultou a história narrada em Atos 15. À pregação de um rito com condição de ser salvo, Paulo se opôs tenazmente. A linguagem de Lucas é forte, violenta mesmo. Tudo estava em jogo. Paulo se fez revoltoso, fez parar toda a marcha de sua obra missionária, perturbar toda a paz do cristianismo mas não consentiu em semelhante ideia fatal ao Evangelho. “Contenda” é a mesma palavra usada a respeito do “motim” de Barrabás, em Marcos 15:7. Paulo fez motim para salvar o Evangelho. Outrossim, levou um incircunciso, Tito, a Jerusalém e intransigentemente obrigou a cristandade toda a reconhece-lo como plenamente cristão, sem o rito mosaico. Desafiou os judaizantes em sua própria fortaleza e conseguiu que fossem publicamente repudiados como “falso irmão”. Qualquer pessoa que realmente pense em seu coração ser necessário um rito para a salvação é “falso irmão”. Não é salvo nem sabe o abc do Evangelho. “Aos quais nem por uma hora estivemos em sujeição, para que a verdade do Evangelho permanece entre vós”, (Gál. 2:5). Os católicos e muitos protestantes caíram no mesmíssimo erro fatal de pensar que o batismo é rito regenerador ou justificador. Com todo o vigor de pulmões e cérebro, devemos fazer “motim” contra esse romanismo traiçoeiro. Um rito é tão impotente para salvar quanto é qualquer outro. 
Outra passagem em que se vê esta franca hostilidade às ordenanças da lei é Col. 2:14-23. Cristo cancelou na cruz o escrito de dívida que era contra nós e que constava de ordenanças, “removeu-o inteiramente, cravando-o na cruz.” Dos cravos da cruz os ritos caducos, cerimónias, sábados e ouros “rudimentos do mundo”. São contas velhas, pagas, canceladas, arquivadas nos pregos do Calvário. 
Há, porém, uma mentalidade legalista que não se satisfaz com esta disposição de legislação mosaica caduca que Jesus repudiou. Tira da cruz estas dívidas que Jesus pagou e cancelou e vai procurando cobrá-las a nós. Consertam essa papelada furada. Passam as mãos sobre suas rugas e dobras, carinhosamente. Avivam com tinta forte e letra apagada e morta. Tomam o véu do templo cerimonial que as mãos divinas rasgaram e o costuram e penduram de novo no santuário do seu pensamento, e fazem da Lei a corte dos sacerdotes, para impedir a entrada franca do crente no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus. Os sabatistas fazem isto aberta e sem-cerimoniosamente, renovando dívida do sábado que Jesus cancelou e removeu. Desfazem por tal meio, impiamente, a obra de Jesus no Calvário. 
Mas disfarçado e não menos perigoso é o plano dos romanistas, e de muitos protestantes. Estes consentem, sim, que tais ordenanças estejam arquivadas ali na cruz, “canceladas” e “inteiramente” removidas. Inventam, porém, uma cerimónia equivalente e perpetuadora. O “sábado cristão” fica em lugar do sábado verdadeiro. Igreja nacional vem em substituição da Assembléia de Israel. O batismo infantil é proposto para substituto de circuncisão, a ceia em lugar da páscoa. Sacerdotes ou presbíteros das tribos de Israel terão seus sucessores em padres, ou presbíteros com funções que o Novo Testamento proíbe. A igreja local se governará segundo a norma da sinagoga. O altar e os sacrifícios antigos aparecerão de novo, resumidos na missa e nas vestimentas da casta sacerdotal romana, ortodoxa ou anglicana. E assim, de mil maneiras, obstinados inimigos da simplicidade do Evangelho, desfazem o escândalo da cruz, reabilitam o que Jesus repudiou, cosem farrapos de legalismo “cristão” (?) sobre as rupturas no velho pano de Moisés; botam o vinho novo em odres velhos e põem de novo sobre a cerviz o judo judaico, ou judaico-romanista, o qual Pedro classificou de insuportável. Outra passagem em que esta hostilidade é fraca se acha em Efés. 2:15: “Tendo abolido na sua carne a lei dos mandamentos contidos em ordenanças.” 
E para que servem as Epístolas aos Romanos e aos Gálatas em nossas Bíblias se, a despeito do seu claro ensino, ainda obstinadamente queremos ser legalistas, cerimonialistas, ou ritualistas? 
II. Lado a lado com o repúdio das ordenanças da lei, como mundanismo e carnalidade, há nas mesmas Escrituras cristãs ênfase repetida, sobre o cumprimento da moral da lei no crente. 
A passagem clássica sobre isto é Rom. 8. A lei era impotente pelo seu próprio legalismo e pela fraqueza de nossa carne, ou natureza não regenerada e anti-espiritual. Não pode realizar sua missão, vencer sua meta, alcançar seu alvo. Assim os versículos 2 e 3. 
Mas, no 4, Jesus se mostrou omnipotente e vencedor, no sentido de que “a exigência justa da Lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito.” Deus pela transformação operada em nós pela sua graça nos transferiu para “as regiões celestes em Cristo Jesus” (Efés. 2 ) onde andamos segundo o Espírito. Sem nos gabarmos de nossa perfeição, podemos afirmar que o Espírito consegue no crente o que a Lei era impotente para conseguir no judeu, “A justa exigência da Lei” é viável pelo poder do Espírito, e somente assim. 
Notai a frase – “a justa exigência”. A Lei fez exigências que são eternamente justas: o monoteísmo, o culto em espírito sem imagens, a reverência e veracidade no falar, a honra aos pais, o respeito ao valor e à segurança da vida humana, a pureza sexual, o direito de propriedade particular adquirida com justiça, o testemunho veraz e imparcial, e a atitude mental que regista em nossa consciência os direitos do próximo, sem por sonho pensar em roubar ou cobiçar o olhei-o. Estes e outros elementos morais, no Decálogo, bem como outras doutrinas do Pentateuco, são “justas exigências da Lei” e tem o pleno apoio de Novo testamento em cada página de sua autoridade. Cristo pessoalmente renova a vários desses ensinamentos, mas exclui o mandamento do sábado, Paulo formalmente repudia o inteiro sistema sabático. Não e agora uma “justa exigência”. Ninguém pode guardá-lo senão na primitiva civilização judaica; e ali era dificílimo. E nosso cristianismo. São os homens mas santos que trabalham mais intensamente no domingo. O cristianismo não tem sábado nem sabatismo. O sábado era um dia de decanos, de vadiar em casa ou nas imediações da casa. não foi originariamente um dia semanal de culto. “O dia do Senhor” é um dia de culto e atividade cristã. Vem encher satisfatoriamente mais valores que o antigo sábado, quanto ao culto, à abstenção de labores desnecessários neste dia, à espiritualidade e meditação na igreja e no lar, e ainda as obras de necessidade, beneficência, caridade e evangelização. Não há identidade ou continuidade do sábado no “dia do Senhor”. O cristianismo preserva a semana (I Cor. 16:2) e ordena deveres no seu primeiro dia, mais repudia o sábado – sistema, dia e espírito. Só no terreno das exigências justas, as provisões da moral e santidade, é que o Evangelho renova, realiza, aumenta e completa a moral da Lei. Jesus não revogou a lei moral. Moisés dera uma revelação parcial e preparatória da lei moral, encaixada indiscriminadamente numa vasta legislação cerimonial, dietética e teocrática – visando apenas o povo de Israel. Cristo completou e universalizou a moral e separou do sistema levítico. 
III. Deveres a moral do Evangelho supera a da Lei. Estende, expande, alarga, alonga, aprofunda, aplica e espiritualiza a moral primitiva. 
Eis a razão por que a Lei toda findou em Cristo. Cristo e Paulo hostilizam, repudiam, cancelam e removem inteiramente as ordenaras da Lei. Logo esta arte não vinga no cristianismo. A outra parte, “justa exigência,” Jesus e os apóstolos cumprem, desenvolvem, alargam, alongam e aplicam. Logo nossa legislação cristã é a vontade ampla e perfeita de Cristo Jesus, revelada e interpretada pelo círculo apostólico no Novo Testamento. Há passagens em que o verbo traduzido “cumprir” significa “completar, encher”. Assim Cristo completou e edifício da moral, e encheu-o do seu Espírito todo-poderoso e removeu os andaimes cerimoniais e preparatórios. 
Quem quererá residir no andaime, podendo morar no edifício completo? Quem regredirá da enciclopédia para a cartilha? Quem voltará da sua maioridade para vestir suas caducas saias infantis? Quem, estando livre, pedirá escravidão? 
O Espírito cumpre no homem espiritual o que a Lei pode exigir, mas foi impotente para conseguir na vida humana. “O pecado não terá domínio sobre vós: visto que não estais debaixo da Lei (impotente) mas debaixo da graça” (moralmente transformadora e espiritualmente eficaz para realizar na vida e elevada moral que ensina). Rom. 6: 14. O Velho Testamento tem para nós valiosos elementos de história, profecia, devoção, exemplos, provérbios, sabedoria e filosofia. Porém, não é lei no cristianismo. (Ao citar o artigo há certa repetição que parece inevitável, e uns acréscimos necessários para esclarecer a ideia). 
Certamente, todo o leitor da Bíblia que não esteja física e espiritualmente cego há de notar que a Bíblia tem duas partes, dois Testamentos. Colher, à toa, passagens isoladas, de qualquer parte das Escrituras, indiscriminadamente, é maneira de enganar-se a si mesmo e aos outros. Jesus disse que seu ensino não seria remendos novos sobre os velhos panos rotos do judaísmo. Paulo pregou que a Lei findou e foi cravada na cruz. Quando a Epístola aos Hebreus foi escrita a questão era trágica, urgentíssima, para os judeus crentes. Já se aproximava rapidamente o dia quando ninguém podia ser judeu e cristão perante as autoridades de Jerusalém e das sinagogas. “Dizendo: nova aliança, ele tem feito antiquada a primeira; mas aquilo que se está tornando antiquado e envelhecendo, perto está de desaparecer.” Estas palavras foram escritas perto de 70 d.C. quando os cristãos unanimemente se retiraram de Jerusalém para Pela. Saíram, ficando com Jesus, “fora do acampamento, levando seu opróbrio”. Heb.13:13. Já não tinham aqui uma cidade permanente, pois Jerusalém estava para cair e com a capital caiu a teocracia, o sistema levítico, a oferta de sacrifícios sobre altares, todo o cerimonialismo mosaico. Isto, na véspera da campanha de Tito, já “estava se tornando antiquado, envelhecendo, prestes a desaparecer.” De fato, caducou. Quando João, o amado apóstolo, escreveu seu Evangelho, muitos anos depois, falou dos judeus como francamente inimigos de Jesus e seus discípulos. “Os judeus,” nos lábios de João, em 90 d. C., tem a mesma significação que tem para nós, uma religião completamente diferente da nossa, sem a menor confusão ou comunhão. Mas Paulo e Tiago foram bons judeus até ao fim de suas vidas, especialmente dentro da jurisdição territorial da teocracia. Nenhum gentio, porém, no primeiro século, jamais esteve legitimamente, sob a Lei. 
Nossa norma não é a prática de Moisés perante o Sinai, de Israel no deserto ou em Canaã, ou de Jesus na Palestina ou da primitiva igreja em Jerusalém. As Escrituras, quer no Velho Testamento, quer no Novo, que manifestam uma atitude judaica, isto é, de judeus como judeus em relação à teocracia sacerdotal e cerimonial, simplesmente não tem aplicação à nossa vida. O período de meio século de transição passou. Já a separação se fez. Voltar para o judaísmo, ainda que no mínimo, é apóstatas da fé. É irmanar-se com os insensatos Gálatas na sai loucura. 


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